Dúzia Suja 2025 e Quinze Limpos: onde comprar biológico — e onde poupar
A lista da EWG para 2025 trouxe uma mudança importante: passou a considerar também a toxicidade dos pesticidas. O resultado ajuda a perceber que frutas e legumes vale a pena comprar biológicos — e onde o convencional pode ser uma escolha mais tranquila.
- Em 2025, a EWG atualizou a forma como calcula a Dúzia Suja, passando a incluir também a toxicidade dos pesticidas.
- Espinafres, morangos, couves, uvas e pêssegos ficaram entre os produtos com mais resíduos de pesticidas.
- Os Quinze Limpos ajudam a perceber onde pode ser mais tranquilo comprar convencional e poupar algum dinheiro.
Uma lista que levei comigo para o supermercado
Confesso: há listas que guardo no telemóvel com alguma esperança de me tornarem uma pessoa mais organizada.
A lista das compras.
A lista dos livros que quero ler.
A lista das coisas que devia resolver antes de abrirem uma investigação formal à gaveta dos cabos.
E depois há esta: a lista anual da EWG sobre pesticidas em frutas e legumes.
Todos os anos, a Environmental Working Group publica duas listas que circulam bastante: a Dirty Dozen, conhecida em português como Dúzia Suja, e a Clean Fifteen, que podemos traduzir como Quinze Limpos.
A primeira reúne os frutos e legumes convencionais com maior carga de resíduos de pesticidas, segundo a análise da organização. A segunda mostra os produtos com menor presença desses resíduos.
Lida depressa, a Dúzia Suja pode parecer uma daquelas listas feitas para estragar o prazer de comer morangos. Mas não precisa de ser assim.
A ideia não é transformar a secção da fruta num lugar de culpa. É usar a informação para fazer escolhas melhores quando dá — e escolhas possíveis quando não dá.
Porque entre “comprar tudo biológico” e “ignorar tudo” há uma zona muito mais realista. É nessa zona que a maioria de nós vive.
O que mudou em 2025
A grande novidade de 2025 não foi apenas a ordem da lista.
Foi a forma como a EWG chegou a ela.
Até aqui, a classificação olhava sobretudo para fatores como a frequência com que os pesticidas eram encontrados, a quantidade de resíduos e o número de pesticidas diferentes detetados. Em 2025, a EWG passou também a incluir uma medida de toxicidade — ou seja, não apenas “quantos resíduos aparecem”, mas também “que tipo de pesticidas aparecem”.
Isto torna a lista mais interessante, mas também exige uma leitura mais calma.
Porque a palavra “toxicidade” assusta. E assusta ainda mais se estiver ao lado de “espinafres”, “morangos” ou “maçãs”, alimentos que associamos a saúde, lancheiras, pequenos-almoços e boas intenções.
Mas o ponto central continua a ser o mesmo: a lista não é uma ordem para deixar de comer estes alimentos. É uma ferramenta para orientar compras.
E ferramentas servem para ajudar, não para mandar em nós.
A Dúzia Suja de 2025
Segundo a EWG, estes foram os 12 produtos convencionais com maior carga de resíduos de pesticidas em 2025:
- Espinafres
- Morangos
- Couve kale, couve-galega e folhas de mostarda
- Uvas
- Pêssegos
- Cerejas
- Nectarinas
- Peras
- Maçãs
- Amoras
- Mirtilos
- Batatas
Ao ver a lista, tive aquela reação muito humana de pensar: claro que estão aqui precisamente as coisas que compro.
Espinafres para a sopa. Morangos quando começa a época. Uvas para petiscar. Maçãs porque há sempre a ilusão de que uma maçã em casa significa que estamos a controlar a vida.
Em 2025, há duas entradas que chamam especialmente a atenção: amoras e batatas.
As amoras entraram depois de a USDA testar este fruto pela primeira vez nos dados usados pela EWG. Já as batatas chamaram atenção pela presença de clorprofame, uma substância usada para impedir a germinação durante armazenamento e transporte, cuja aprovação terminou na União Europeia em 2019.
É informação que vale a pena conhecer.
Mas, outra vez, não para entrar em pânico. Para decidir melhor.
Se compra espinafres todas as semanas, talvez faça sentido procurar uma opção biológica quando o preço não for absurdo. Se compra morangos na época e encontra uma versão biológica boa, pode ser uma prioridade. Se as uvas estão sempre na fruteira, talvez entrem na lista dos produtos onde compensa prestar mais atenção.
Não precisa de ser tudo. Pode ser uma escolha de cada vez.
E os Quinze Limpos?
É aqui que a lista fica realmente útil.
Porque a conversa sobre pesticidas não devia ser apenas sobre onde gastar mais. Também deve ser sobre onde podemos poupar com mais tranquilidade.
A lista dos Quinze Limpos mostra os produtos convencionais que, segundo a EWG, apresentaram menor carga de resíduos.
Em 2025, foram estes:
- Ananás
- Milho-doce, fresco ou congelado
- Abacates
- Papaia
- Cebolas
- Ervilhas congeladas
- Espargos
- Couve-repolho
- Melancia
- Couve-flor
- Bananas
- Mangas
- Cenouras
- Cogumelos
- Kiwi
Esta é a parte da lista que devia ter mais fama.
Porque ajuda a aliviar a pressão.
Abacates, ananás, cebolas, mangas, bananas, melancia — muitos destes alimentos têm cascas grossas ou partes exteriores que não comemos. Isso não explica tudo, mas ajuda a perceber por que razão alguns produtos tendem a acumular menos resíduos na parte consumida.
E, num supermercado onde o biológico pode custar bastante mais, esta informação é prática.
Pode comprar morangos biológicos quando der. E comprar bananas convencionais sem sentir que falhou num teste invisível de virtude alimentar.
Como usar as duas listas sem complicar a vida
A melhor forma de usar estas listas não é decorar os 27 alimentos como se fosse para um exame.
É pensar em frequência.
O que compra todas as semanas?
O que come todos os dias?
O que as crianças comem muito?
O que aparece sempre na sua cozinha?
Se um alimento da Dúzia Suja é presença constante em casa, pode ser um bom candidato para comprar biológico quando possível.
Se é algo que compra raramente, talvez não precise de ser prioridade.
Por outro lado, se um alimento está nos Quinze Limpos, pode ser uma boa opção convencional para equilibrar o orçamento.
É uma espécie de negociação honesta com a realidade: gastar mais onde faz mais sentido, poupar onde a diferença parece menos importante.
Sem drama. Sem culpa. Sem precisar de pedir desculpa à couve-flor.
A lista é americana. E Portugal?
Este ponto é essencial.
A Dúzia Suja e os Quinze Limpos são listas americanas. Baseiam-se em dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e refletem produtos, cadeias de abastecimento e regras daquele mercado.
Por isso, não devem ser lidas como uma classificação oficial das frutas e legumes vendidos em Portugal.
Na União Europeia e em Portugal existem controlos próprios de resíduos de pesticidas. Em Portugal, a DGAV coordena os controlos oficiais de resíduos de pesticidas em géneros alimentícios de origem vegetal e animal.
Ainda assim, a lista da EWG pode ser útil como referência geral.
Não nos diz exatamente o que está em cada caixa de morangos vendida em Portugal. Mas ajuda a identificar padrões: frutos delicados, folhas verdes e produtos consumidos com casca tendem a merecer mais atenção.
É uma bússola, não um veredicto.
Presença de resíduos não é automaticamente perigo
Há uma frase que convém repetir sempre que se fala de pesticidas: encontrar resíduos não significa, por si só, que um alimento seja perigoso.
Muitos críticos da Dúzia Suja lembram que os resíduos detetados ficam frequentemente abaixo dos limites legais definidos pelas autoridades reguladoras.
E isso importa.
Ao mesmo tempo, a EWG argumenta que os limites legais não respondem a todas as preocupações, sobretudo quando se pensa em exposição repetida, mistura de vários pesticidas e grupos mais vulneráveis, como crianças.
É aqui que a conversa fica menos simples do que gostaríamos.
De um lado, há limites legais e avaliações de segurança. Do outro, há uma preocupação crescente com exposição cumulativa e substâncias com efeitos potenciais a longo prazo.
Para o consumidor comum, talvez a resposta mais sensata seja esta: não transformar fruta e legumes em fonte de medo, mas reduzir exposição quando isso é fácil, acessível e razoável.
Lavar continua a fazer sentido
Lavar frutas e legumes não elimina todos os resíduos de pesticidas, mas continua a ser um gesto importante.
Ajuda a remover sujidade, alguns microrganismos e parte dos resíduos superficiais. A recomendação mais simples é passar os produtos por água corrente e esfregar suavemente com as mãos. Em produtos firmes, como batatas, melões ou pepinos, pode usar-se uma escova limpa.
O que não deve fazer é lavar fruta e legumes com detergente ou sabão.
Eu sei que, em certos dias, parece tentador dar aos morangos o mesmo tratamento que damos a uma frigideira. Mas não. Os alimentos são porosos e podem absorver substâncias que não foram feitas para comer.
Também ajuda lavar antes de descascar, para evitar que a faca leve sujidade da casca para o interior. E, nas folhas verdes, retirar folhas exteriores danificadas pode ser uma boa prática.
Simples. Sem espuma. Sem ritual de laboratório.
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Biológico quando possível, convencional quando necessário
Há um certo tom moral que às vezes entra nestas conversas.
Como se comprar biológico fosse sinal de pureza pessoal e comprar convencional fosse uma espécie de derrota.
Não é.
Há famílias para quem o biológico cabe no orçamento. Há outras para quem não cabe. Há semanas em que cabe. Há semanas em que claramente não.
A informação só é útil se respeitar isso.
Por isso, eu gosto de ler a Dúzia Suja e os Quinze Limpos como uma ajuda prática:
Comprar biológico para alguns alimentos da Dúzia Suja, se possível.
Comprar convencional nos Quinze Limpos com mais tranquilidade.
Lavar tudo.
Variar a alimentação.
E continuar a comer fruta e legumes.
Porque a pior conclusão seria alguém deixar de comprar alimentos frescos por achar que não consegue comprar a versão “perfeita”.
A versão perfeita raramente existe.
A versão possível, repetida todos os dias, já faz muito.
O que importa
A Dúzia Suja de 2025 não é uma lista para assustar.
É uma lista para orientar.
Ajuda-nos a perceber onde pode valer a pena escolher biológico, sobretudo quando falamos de alimentos que compramos muitas vezes. E os Quinze Limpos fazem o contrário: mostram onde o convencional pode ser uma escolha mais tranquila, especialmente quando o orçamento manda mais do que a intenção.
No fundo, a pergunta não é: “Que fruta devo deixar de comer?”
A pergunta é: “Como posso comprar melhor, dentro da minha vida real?”
E essa resposta muda de casa para casa.
Às vezes será escolher espinafres biológicos.
Outras vezes será comprar bananas convencionais.
Outras ainda será simplesmente lavar bem os morangos, pô-los numa taça e não transformar o lanche numa conferência sobre resíduos agrícolas.
A comida também deve continuar a ser comida.
E a informação, quando é boa, não nos tira o apetite.
Ajuda-nos a escolher com mais cuidado.
- EWG’s Shopper’s Guide to Pesticides in Produce™: Almost 60% of ‘Clean Fifteen’ samples have no detectable pesticide residue — guia do consumidor da EWG para pesticidas em frutas e legumes: quase 60% das amostras dos “Quinze Limpos” não tinham resíduos detetáveis de pesticidas
- Shopper’s Guide to Pesticides in Produce™ Methodology — metodologia do guia do consumidor para pesticidas em frutas e legumes
- EWG’s 2025 Dirty Dozen List of Most Pesticide-Contaminated Produce Uses New Methodology — a lista Dúzia Suja 2025 da EWG usa uma nova metodologia
- 7 Tips for Cleaning Fruits and Vegetables — sete dicas para lavar frutas e legumes
- DGAV — Resíduos de pesticidas — informação da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária sobre resíduos de pesticidas

