Sete ténis que a cultura transformou em clássicos

Começaram no basquetebol, no ténis, no futebol ou no skate e acabaram no guarda-roupa de quase toda a gente. Das Converse aos Samba, Air Force 1 e Vans Old Skool, estes são os modelos que sobreviveram às tendências — e como perceber qual deles merece o seu dinheiro.

Os ténis atravessam gerações, estilos e ritmos de vida sem perderem relevância. / ABV
O essencial
  • Estes ténis tornaram-se clássicos porque atravessaram o desporto, a música, a televisão e várias mudanças de gosto.
  • A relevância cultural ajuda a explicar a longevidade, mas uma boa compra continua a depender da roupa que já usa.
  • Cada silhueta cumpre uma função diferente: discrição, textura, perfil baixo, volume ou informalidade.
  • Não precisa de comprar todos. Precisa de identificar aquele que acrescenta algo verdadeiramente útil ao seu guarda-roupa.
Por Clara · 15 de julho de 2026 · Leitura: 10 minutos Clara Monteiro escreve sobre moda, cultura visual e as escolhas quotidianas que definem o nosso estilo.

Seinfeld foi uma comédia norte-americana criada por Jerry Seinfeld e Larry David sobre um comediante de Nova Iorque e os três amigos com quem transformava encontros falhados, vizinhos irritantes e pequenos incómodos quotidianos em histórias. Exibida entre 1989 e 1998, ficou conhecida como uma série sobre “nada”, embora a sua influência na cultura popular tenha sido tudo menos pequena.

Para os leitores mais novos, pode pensar-se nela como uma série que criava frases, personagens e situações memoráveis muito antes de os episódios serem recortados em memes. Havia também um pormenor visual difícil de ignorar: Jerry atravessava Manhattan com jeans, camisas largas e ténis Nike bem visíveis, muitas vezes brancos e robustos.

A combinação envelheceu surpreendentemente bem. Os telefones pertencem a outra época, mas a roupa poderia aparecer hoje numa esplanada, num aeroporto ou numa fotografia de street style. Os ténis fizeram o mesmo percurso: saíram dos campos, dos courts e das pistas de skate, passaram pela música, pelo cinema e pela televisão e acabaram a acompanhar ganga, vestidos e alfaiataria descontraída.

Isso não significa que qualquer modelo seja uma boa compra. Alguns dependem de uma colaboração limitada ou de proporções que parecem indispensáveis durante uma estação e ultrapassadas pouco depois. Outros atravessaram gerações sem perder a identidade: Converse, Stan Smith, Samba, PUMA Suede, Air Force 1, Superstar e Vans Old Skool.

Este é, por isso, um guia para perceber o que cada clássico acrescenta ao guarda-roupa, com que roupa funciona e qual deles merece realmente o seu dinheiro.

Converse Chuck Taylor All Star: o clássico que melhora com o uso

Dos All Star de cano alto aos modelos de cano baixo, as Converse continuam a provar que alguns ténis não precisam de ficar impecáveis para continuarem a funcionar. / ABV

As Converse Chuck Taylor All Star começaram no basquetebol e ganharam a assinatura de Chuck Taylor em 1934. Quando deixaram de ser equipamento competitivo, passaram para os pés de músicos, artistas, estudantes e sucessivas culturas juvenis, transformando a lona, a biqueira de borracha e a sola vulcanizada numa silhueta reconhecível em quase todo o mundo. São também um dos raros ténis que podem melhorar com o uso: a lona amolece, a borracha ganha marcas e o par começa a parecer verdadeiramente pessoal.

Na hora de comprar, a principal escolha é entre cano alto e baixo. A versão baixa é mais fácil no verão e interfere menos com o comprimento das calças; o cano alto acrescenta presença e funciona bem com calças largas, saias e roupa utilitária. Preto, branco e azul-marinho são todos clássicos. Vale a pena investir se prefere um guarda-roupa casual e criativo, mas não será a melhor opção para quem precisa de muito amortecimento, suporte ou espaço na zona dos dedos.

adidas Stan Smith: o clássico que quase desaparece no coordenado

Simples, discretos e fáceis de integrar, os Stan Smith continuam a ser um dos pontos de partida mais seguros para quem quer comprar menos e usar mais. / ABV

Os adidas Stan Smith foram desenvolvidos em meados da década de 1960 para o tenista francês Robert Haillet e só mais tarde adotaram o nome e o retrato de Stan Smith. A pele lisa, as três riscas reduzidas a perfurações e a sola pouco volumosa permitiram-lhes sair dos courts e tornar-se um dos ténis mais discretos e versáteis do guarda-roupa.

Funcionam especialmente bem com ganga, chinos, alfaiataria descontraída, saias e vestidos. A versão branca com detalhe verde é a mais reconhecível, mas azul-marinho, preto e creme podem integrar-se melhor noutras paletas. São uma boa compra para quem procura um único par capaz de circular entre roupa casual e peças mais cuidadas, embora possam parecer demasiado convencionais para quem prefere ténis com maior personalidade.

adidas Samba: o ténis do momento que já sobreviveu a muitas modas

Os Samba podem estar em todo o lado neste momento, mas a sua longevidade explica por que razão continuam a parecer uma compra segura mesmo depois de a tendência passar. / ABV

O adidas Samba surgiu em 1950 como calçado ligado ao futebol e ao treino. O perfil baixo, a proteção em forma de T na biqueira, as três riscas e a sola de borracha permitiram-lhe atravessar várias décadas e regressos da moda sem perder a identidade.

É uma boa escolha para calças direitas ou largas, saias e vestidos, sobretudo quando uma sola robusta pareceria dominar o conjunto. A versão branca com riscas pretas continua a ser a mais conhecida, enquanto o preto com riscas brancas oferece uma alternativa igualmente clássica. Deve pensar duas vezes se tem o pé largo, precisa de muito amortecimento ou já possui vários ténis estreitos com a mesma função.

PUMA Suede: a textura que atravessou o desporto, o hip-hop e a rua

Com mais cor, textura e personalidade, os PUMA Suede mostram como a camurça pode acrescentar interesse ao guarda-roupa sem o tornar mais difícil. / ABV

O PUMA Suede apareceu em 1968 e passou pelo atletismo, basquetebol, hip-hop, breakdance, skate e cultura de rua. Apesar das mudanças de nome — Crack, Clyde, States e finalmente Suede — manteve a construção baixa, a camurça e a faixa lateral que o tornam imediatamente reconhecível.

É especialmente útil para quem já possui um ténis mais simples e quer acrescentar textura, cor e presença sem complicar o guarda-roupa. Vermelho, azul, verde, preto, castanho e bordô funcionam particularmente bem neste material. Não é, contudo, o modelo mais prático para chuva frequente ou para quem não pretende dedicar qualquer manutenção à camurça.

Nike Air Force 1: quando a roupa precisa de uma base mais firme

Com uma construção mais robusta e uma sola substancial, os Nike Air Force 1 funcionam melhor quando o guarda-roupa pede uma base visual mais firme. / ABV

Lançado em 1982 e desenhado por Bruce Kilgore, o Nike Air Force 1 levou a tecnologia Nike Air do basquetebol para a música, a cultura urbana e o vestuário quotidiano. A sola espessa, os painéis sobrepostos e a construção robusta dão-lhe um peso visual muito diferente do Stan Smith ou do Samba.

Funciona melhor com ganga larga, calças cargo, casacos substanciais, alfaiataria descontraída e peças com volume suficiente para equilibrar a sola. A versão branca integral continua a ser a mais reconhecível, embora o preto e os tons neutros disfarcem melhor as marcas do uso diário. Vale a pena investir se gosta de proporções amplas; com tecidos muito leves ou calças muito estreitas, porém, poderá dominar o conjunto.

adidas Superstar: a biqueira em concha que ligou o basquetebol ao hip-hop

A biqueira em concha distingue imediatamente os adidas Superstar, um modelo nascido no basquetebol que encontrou uma segunda vida duradoura na música e na cultura urbana. / ABV

O adidas Superstar foi lançado em 1970 como ténis de basquetebol em pele, distinguindo-se pela biqueira de borracha em concha. A adoção pelos Run-D.M.C. e pela cultura hip-hop transformou-o num dos exemplos mais importantes de um modelo desportivo redefinido pela música.

Tem mais presença do que um Stan Smith, mas costuma ser menos volumoso do que um Air Force 1, funcionando bem com ganga, calças largas ou direitas, fatos descontraídos e vestidos simples. A versão branca com riscas pretas mostra melhor a identidade do modelo, enquanto o preto com riscas brancas oferece uma alternativa igualmente clássica. A rigidez da biqueira deve ser testada por quem precisa de mais espaço na zona dos dedos.

Vans Old Skool: o clássico casual que nunca precisou de parecer arranjado

Os Vans Old Skool continuam a ser uma referência do guarda-roupa casual, especialmente com ganga, workwear e coordenados descontraídos. / ABV

Os Vans Old Skool surgiram em 1977 como Style 36 e foram o primeiro modelo da marca a apresentar painéis de pele e a faixa lateral que se tornou assinatura da Vans. A ligação ao skate explica a mistura de lona, camurça e sola vulcanizada, mas a música, a arte e a cultura urbana levaram-nos muito além desse universo.

Funcionam especialmente bem com ganga, calças utilitárias, calções, roupa de trabalho, saias e coordenados descontraídos. A versão preta com faixa branca continua a ser a mais reconhecível, embora azul-marinho, bordô e castanho também envelheçam bem. São uma boa compra para guarda-roupas casuais ou influenciados pelo streetwear, mas menos adequados para quem precisa de muito amortecimento ou de acompanhar frequentemente alfaiataria formal.

O que importa

Nenhum destes sete modelos permaneceu relevante apenas porque uma marca decidiu continuar a fabricá-lo. Cada um encontrou uma vida para além da função original: as Converse ganharam carácter na música e no uso quotidiano, os Stan Smith tornaram-se quase invisíveis dentro do coordenado, os Samba levaram o futebol para a rua, os PUMA Suede transformaram textura e cor em cultura, os Air Force 1 deram volume ao guarda-roupa moderno, os Superstar ligaram o basquetebol ao hip-hop e os Vans Old Skool conservaram a informalidade do skate sem exigir que quem os usa pertença a esse mundo.

Essa história pode tornar uma compra mais segura, mas não substitui o julgamento pessoal. O melhor clássico não é necessariamente o mais famoso, mas aquele cuja silhueta funciona com a roupa que já tem, cujo conforto resiste a um dia inteiro e cuja presença continuará a fazer sentido quando a próxima tendência ocupar as montras.

Não precisa de comprar todos, nem de tratar os ténis como objetos de coleção. Precisa apenas de reconhecer qual deles acrescenta algo verdadeiro ao seu guarda-roupa — e merece, por isso, o seu dinheiro.

Fontes e leitura recomendada
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