Naomi Campbell Foi Mãe aos 50 e aos 53. / Instagram
Talvez a pergunta seja outra: que caminhos existem?
Durante muito tempo, falámos da maternidade como se houvesse apenas uma estrada: encontrar alguém, engravidar, ter filhos dentro de uma idade considerada “normal” e seguir a vida sem grandes desvios. Só que muitas vidas não obedecem a esse mapa.
Há mulheres que não tiveram estabilidade financeira aos 30. Há mulheres que só encontraram paz emocional mais tarde. Há mulheres que passaram anos a cuidar dos outros. Há mulheres que não quiseram filhos durante muito tempo e depois mudaram de ideias. Há mulheres que quiseram sempre, mas a vida, a saúde, o amor ou o dinheiro não colaboraram.
E há também mulheres que não serão mães — por escolha, por circunstância ou por dor — e que continuam inteiras.
Naomi Campbell, supermodelo britânica e uma das figuras que ajudaram a definir a moda das décadas de 1980 e 1990, passou grande parte da vida adulta sob o olhar público. Mesmo para quem não acompanha moda de perto, pertence a essa rara geração de modelos cujo nome ultrapassou largamente as passerelles.
A história de Naomi pode ser útil se a lermos assim: não como uma promessa cor-de-rosa de que o tempo não existe, mas como um lembrete de que a maternidade, quando acontece, nem sempre chega pelo caminho previsto.
A frase “nunca é tarde demais” é bonita. Mas neste tema precisa de notas de rodapé.
Pode ser tarde para algumas possibilidades biológicas. Pode ser difícil engravidar naturalmente. Pode ser caro. Pode ser emocionalmente exigente. Pode envolver consultas, exames, decisões médicas, legislação, listas de espera, luto e escolhas que ninguém devia romantizar.
Mas isso não significa que a conversa acabe ali.
Hoje existem mais caminhos para formar família do que existiam noutras gerações: técnicas de procriação medicamente assistida, doação de gâmetas, adopção, famílias monoparentais, famílias recompostas e, em contextos legais muito específicos, gestação de substituição. Em Portugal, a gestação de substituição é enquadrada como excepcional e gratuita, em situações clínicas muito restritas, por isso não deve ser apresentada como uma opção simples ou universal.
Naomi Campbell não nos oferece uma regra. Oferece uma abertura.
A sua história não deve ser usada para dizer a uma mulher de 42, 45 ou 50 anos: “vês, ainda podes, basta querer.” Isso seria injusto. Querer nem sempre chega. O corpo, a lei, o dinheiro, a saúde e as circunstâncias também entram na conversa.
Mas também não devemos usar a biologia como sentença cruel.
O mais humano talvez seja dizer isto: informe-se cedo, procure bons profissionais, conheça as opções, não se culpe pelo calendário da sua vida e não deixe que uma sociedade impaciente decida sozinha o que ainda pode ou não pode acontecer.
Nota editorial: Este artigo foi publicado originalmente em 29 de Junho de 2023. Republicamo-lo hoje na secção Sociedade com um novo olhar: menos centrado na ideia simples de “nunca é tarde demais” e mais atento aos vários caminhos — pessoais, médicos, familiares e emocionais — que podem levar alguém à maternidade.
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