Chocolate, vinho do Porto, azeite e bom humor: talvez a longevidade comece nos pequenos prazeres vividos com moderação. / ABV
Viver mais tempo continua a ser uma das grandes tentações humanas. Mas entre chocolate, caminhadas, bom humor e genética, talvez a pergunta certa não seja apenas como viver até mais tarde — mas como chegar lá ainda com vontade de ficar.
Comecei a pensar neste artigo com uma pergunta pouco científica, mas muito humana: se houvesse mesmo uma forma razoável de viver para sempre, quantos de nós fingiriam hesitar antes de aceitar?
Claro que diríamos coisas sensatas. “Ah, não sei, a imortalidade deve ser cansativa.” “Depende da qualidade de vida.” “É preciso aceitar o ciclo natural das coisas.” Tudo muito digno.
Mas se alguém nos aparecesse à porta com uma pequena caixa e dissesse: “Aqui dentro está a possibilidade de mais uns 40 anos lúcidos, ativos e com sobremesa incluída”, talvez a nossa filosofia caísse no tapete da entrada.
A busca pela longevidade sempre teve esta mistura curiosa de ciência, vaidade, medo e esperança. Queremos viver mais, mas não queremos apenas acrescentar anos como quem acrescenta recibos a uma gaveta. Queremos tempo com corpo, cabeça, prazer, companhia e alguma leveza. Queremos a versão boa: mais aniversários, mais almoços demorados, mais manhãs de sol, mais gente à mesa.
E, idealmente, sem que alguém nos obrigue a beber um batido verde com sabor a relva molhada todos os dias.
É por isso que Jeanne Calment e Jiroemon Kimura continuam a fascinar. Não porque tenham deixado uma fórmula secreta, mas porque chegaram tão longe que parecem personagens saídas de uma pergunta impossível: afinal, o que é que sustenta uma vida muito longa?
Jeanne Louise Calment nasceu em Arles, no sul de França, a 21 de fevereiro de 1875. Viveu até 4 de agosto de 1997. Feitas as contas, chegou aos 122 anos e 164 dias — a idade humana mais elevada alguma vez plenamente autenticada.
É difícil imaginar uma vida que atravessa tanto mundo. Jeanne nasceu antes da Torre Eiffel existir, antes do cinema se tornar linguagem universal, antes de duas guerras mundiais, antes da televisão, antes da chegada à Lua, antes da internet nos convencer de que toda a gente precisava de ter uma opinião sobre tudo.
A sua biografia tem momentos quase literários. Em jovem, disse ter conhecido Vincent van Gogh na loja do tio, em Arles. A memória que guardou dele não foi exatamente romântica. Achou-o desagradável, mal apresentado e com cheiro a álcool. É uma crítica dura, mas vinda de uma mulher que viveu até aos 122 anos, talvez devamos aceitar que tinha tempo suficiente para formar opiniões.
Jeanne também ficou célebre por outro episódio digno de comédia negra patrimonial. Aos 90 anos, assinou um acordo com o advogado André-François Raffray: ele pagaria uma quantia mensal e, quando ela morresse, ficaria com o apartamento. Parecia uma aposta prudente. Jeanne tinha 90 anos.
O problema, para Raffray, é que Jeanne não estava particularmente disponível para colaborar com as probabilidades. Viveu mais décadas, recebeu muito mais do que o valor do apartamento e acabou por sobreviver ao próprio advogado. A família dele continuou a pagar depois da morte dele.
Há histórias que parecem inventadas por um romancista com sentido de humor. Esta aconteceu mesmo.
Quanto aos seus “segredos”, Jeanne falava de azeite, vinho do Porto, chocolate e bom humor. Segundo relatos repetidos ao longo dos anos, gostava de chocolate — muito — e chegou a comer perto de um quilo por semana. Também fumou durante grande parte da vida, tendo deixado o tabaco apenas aos 117 anos, quando a visão tornou difícil acender os cigarros.
Convém fazer aqui uma pausa responsável: isto não transforma o tabaco num hábito recomendável, nem o vinho do Porto numa intervenção clínica. A longevidade de Jeanne não é uma autorização médica para viver a sobremesa como plano de saúde.
Mas também seria uma pena retirar da história dela aquilo que a torna tão humana. Jeanne não viveu como um manual de instruções. Viveu com rotinas, privilégios, atividade, relações, autonomia, algum prazer e uma personalidade afiada.
Quando lhe perguntaram, aos 120 anos, que futuro esperava, respondeu: “Muito breve.”
É difícil competir com isto. A frase tem mais saúde mental do que muitas listas de produtividade.
Jiroemon Kimura nasceu a 19 de abril de 1897, em Kyoto, no Japão, e morreu a 12 de junho de 2013, aos 116 anos e 54 dias. É reconhecido como o homem mais velho alguma vez documentado.
A sua história tem uma textura diferente da de Jeanne Calment. Menos sul de França, menos vinho do Porto, menos anedotas patrimoniais. Mais disciplina, rotina, comida simples e uma relação discreta com o tempo.
Kimura trabalhou como carteiro e funcionário de comunicações. Depois da reforma, continuou ligado à agricultura durante muitos anos. Vivia com uma atenção quotidiana ao corpo e à mente: acordava cedo, lia jornais, mantinha interesse pelas notícias e pela política, conversava, recebia visitas e seguia o mundo à sua volta.
A frase mais associada a ele é simples: “Comer pouco para viver muito.” Em japonês, esta ideia aproxima-se do princípio de comer até se estar cerca de 80% satisfeito, não até o corpo pedir uma assembleia de emergência.
Aqui, mais uma vez, convém resistir à tentação de transformar a frase em mandamento. Comer pouco, por si só, não é garantia de longevidade. E em certas idades ou condições de saúde, comer pouco pode até ser perigoso se significar má nutrição. Mas a ideia de moderação atravessa muitas conversas sobre envelhecimento saudável.
Kimura não vendia uma fórmula exótica. Falava de porções pequenas, atividade, mente ocupada e uma rotina que o mantinha ligado ao mundo. Talvez o segredo não fosse apenas viver muitos anos, mas continuar a participar neles.
O problema das histórias de longevidade é que queremos sempre extrair delas uma regra. Se Jeanne comia chocolate, queremos saber a marca. Se Kimura comia pouco, queremos saber a taça exata. Se alguém vive até aos 100 e diz que toma café todas as manhãs, passamos a olhar para a chávena como se fosse um contrato com o futuro.
Antes, o segredo parecia estar no vinho, no chocolate, no azeite e numa boa dose de insolência perante a idade. Hoje, aparece em frascos de suplementos, relógios inteligentes, banhos frios, jejum intermitente e cápsulas com nomes que soam a palavra-passe de Wi-Fi. Vivemos numa época curiosa: nunca quisemos tanto viver mais — nem passámos tanto tempo a controlar cada minuto da vida que já temos.
Mas a vida humana raramente é assim tão obediente.
A investigação atual sobre longevidade aponta para uma combinação de fatores. Há genética, claro. Algumas famílias parecem ter uma vantagem biológica real. Há também ambiente, acesso a cuidados de saúde, alimentação, atividade física, sono, stress, relações sociais, nível socioeconómico, propósito, sorte e a capacidade misteriosa de alguns corpos resistirem melhor ao desgaste.
As chamadas Blue Zones — regiões onde se encontrou uma concentração elevada de pessoas muito idosas — popularizaram ideias como alimentação simples, movimento natural, forte vida comunitária, propósito e rotinas estáveis. Mas mesmo essas observações devem ser lidas com cuidado. Não são mapas do tesouro. São pistas.
A ciência da longevidade hoje fala cada vez mais de healthspan: não apenas o número de anos vividos, mas os anos vividos com saúde, autonomia e qualidade. Porque viver mais, por si só, é uma ambição incompleta. A pergunta mais interessante talvez seja: mais anos para quê?
Mais anos para estar preso a restrições sem prazer? Mais anos a cumprir regras que tiram sabor à vida? Mais anos a transformar o jantar num cálculo e a alegria numa infração?
Há uma frase atribuída ao escritor e humorista Clement Freud que resume isto com malícia: se uma pessoa decide abandonar fumar, beber e amar, não vive necessariamente mais; apenas parece mais tempo.
A piada é boa porque toca numa verdade desconfortável. Claro que deixar de fumar é uma das decisões mais importantes para a saúde. Claro que o excesso de álcool prejudica. Claro que hábitos contam. Mas a longevidade não devia ser vendida como uma longa punição virtuosa.
O objetivo não é viver muitos anos de castigo. É viver melhor, durante mais tempo, com lucidez suficiente para saber quando aceitar a salada — e quando partir o quadradinho de chocolate.
Jeanne e Kimura não nos oferecem uma receita. Oferecem uma conversa.
Dela, talvez fique a importância do prazer, da autonomia, do humor, da vida social e de uma certa teimosia luminosa. Dele, a força da rotina, da moderação, da atividade e da curiosidade mental. De ambos, fica uma ideia muito simples: uma vida longa parece precisar de corpo, sim, mas também de carácter.
E talvez seja aí que muitos discursos modernos sobre longevidade falham. Falam-nos de suplementos, aplicações, métricas, relógios inteligentes e protocolos com nomes caros. Mas as pessoas mais velhas do mundo, quando perguntadas, raramente respondem como biohackers. Falam de comida simples. De família. De trabalho. De movimento. De fé. De sorte. De não se preocupar demasiado. De continuar interessado.
Nenhuma destas coisas cabe bem numa embalagem de luxo.
A ideia de imortalidade é tentadora, mas há que admitir: viver para sempre sem riso, sem amigos, sem uma mesa onde alguém se demora, sem desejo, sem curiosidade e sem chocolate ocasional parece menos uma vitória e mais uma assinatura vitalícia de reuniões desnecessárias.
Talvez por isso a história de Jeanne Calment seja tão irresistível. Não é apenas a idade. É o temperamento. A mulher que atravessou 122 anos não nos deixou uma lista limpa de virtudes. Deixou azeite, chocolate, vinho do Porto, frases afiadas e uma capacidade notável de sobreviver às expectativas dos outros.
E Kimura, com a sua disciplina serena, lembra-nos o outro lado da equação: o corpo gosta de ritmo. A mente gosta de estímulo. A vida gosta de continuidade.
Entre os dois, encontramos uma verdade menos espetacular, mas mais útil: a longevidade talvez não esteja num gesto único. Está na soma de pequenas coisas. Comer razoavelmente bem. Mexer o corpo. Dormir. Não fumar. Beber com moderação, se se beber. Ter gente por perto. Manter a cabeça curiosa. Não transformar a saúde numa prisão. E aceitar que a sorte também entra na sala, mesmo quando ninguém a convidou.
No fundo, todos queremos mais tempo. Quem não quereria? Mais uma viagem, mais um verão, mais uma conversa com alguém que amamos, mais uma oportunidade de corrigir uma coisa, aprender outra, ver como acaba determinada história.
Mas talvez a pergunta mais bonita não seja apenas “como viver mais?”. Talvez seja “como viver de maneira a que mais anos sejam uma boa notícia?”.
Jeanne Calment e Jiroemon Kimura não provaram que o chocolate ou a moderação nos tornam imortais. Provaram outra coisa: uma vida longa pode ter muitas formas. Pode ser espirituosa e francesa, com azeite e resposta pronta. Pode ser disciplinada e japonesa, feita de rotina, pequenas porções e atenção ao mundo.
E talvez, no fim, a busca pela imortalidade esteja sempre um pouco fora do nosso alcance.
Mas se vier acompanhada de um quadradinho de chocolate, uma caminhada ao sol e alguém com quem rir, já não parece um mau começo.
Nota de saúde: Este artigo é apenas informativo e não substitui uma consulta ou orientação personalizada de um profissional de saúde qualificado.
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