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Radiação do telemóvel: como verificar o SAR e reduzir a exposição sem entrar em pânico

Depois do caso do iPhone 12 em França, muita gente voltou a perguntar-se quanta radiação o telemóvel emite — e se há formas simples de reduzir a exposição no dia a dia. A resposta começa por perceber o que é o SAR, o que ele mede e que pequenos hábitos fazem realmente diferença.
Entre a intimidade de um serão em casa e a presença constante do telemóvel, pai e filho partilham o mesmo foco de luz — um retrato visual da proximidade digital no quotidiano. / ABV
O essencial
  • Os telemóveis emitem radiação de radiofrequência, que é não ionizante — diferente dos raios X ou da radiação nuclear.
  • O SAR mede a energia de radiofrequência absorvida pelo corpo em condições de teste.
  • A forma mais simples de reduzir a exposição é aumentar a distância: usar altifalante, auriculares, mensagens ou não transportar o telemóvel colado ao corpo.
Por Duarte · 29 de abril de 2024 · Leitura: 7 minutos Duarte Ribeiro escreve sobre cultura, cidadania e pequenas explicações da vida pública que muitas vezes passam despercebidas — até ao dia em que fazem falta.

Em setembro de 2023, a França suspendeu temporariamente a venda do iPhone 12 depois de testes da ANFR indicarem que o modelo ultrapassava o limite regulamentar de SAR aplicável aos membros. A decisão veio da ANFR, a autoridade francesa responsável pelas frequências, depois de testes terem indicado que o modelo ultrapassava o limite regulamentar de SAR nos membros.

Para muitos utilizadores, foi um daqueles momentos estranhos: olhamos para o telemóvel, pousado ao lado da chávena de café, e ele parece subitamente menos inocente. O mesmo aparelho que usamos para mapas, fotografias, mensagens, pagamentos, receitas, calendários e chamadas da mãe passa, por instantes, a parecer um pequeno objeto de laboratório.

A boa notícia é que este tema não precisa de pânico. Mas também não deve ser tratado com desinteresse absoluto. O caminho sensato está algures no meio: perceber o que é a radiação emitida pelo telemóvel, saber onde encontrar a classificação SAR e adotar alguns hábitos simples que reduzem a exposição sem transformar a vida numa experiência de sobrevivência digital.

Que tipo de radiação emite um telemóvel?

Os telemóveis emitem energia de radiofrequência, uma forma de radiação eletromagnética usada para comunicar com antenas, redes móveis, Wi-Fi, Bluetooth e outros sistemas sem fios.

Esta radiação é não ionizante. Isto significa que não tem energia suficiente para remover eletrões dos átomos ou danificar diretamente o ADN da mesma forma que a radiação ionizante, como os raios X ou os raios gama.

O principal efeito biológico conhecido da radiofrequência, em níveis elevados, é o aquecimento dos tecidos. É por isso que os limites de exposição existem: para manter a energia absorvida abaixo de níveis considerados seguros pelas normas aplicáveis.

Isto não significa que todas as perguntas estejam encerradas. A ciência continua a acompanhar o tema, sobretudo porque usamos dispositivos sem fios durante muitas horas por dia e cada nova geração tecnológica muda a forma como estamos expostos. Mas também não significa que o telemóvel, usado normalmente, deva ser tratado como uma ameaça silenciosa à espreita no bolso do casaco.

O que é o SAR?

SAR significa Specific Absorption Rate, ou Taxa de Absorção Específica. É uma medida que indica a quantidade de energia de radiofrequência absorvida pelo corpo quando um dispositivo está a transmitir.

Em termos simples: o SAR não mede apenas o que o telemóvel emite; mede a energia que pode ser absorvida pelo tecido corporal em condições específicas de teste.

Normalmente, são avaliados diferentes cenários, como o uso junto à cabeça, junto ao tronco ou perto dos membros. É por isso que por vezes encontramos valores diferentes para o mesmo telemóvel.

O SAR é útil, mas tem uma limitação importante: é uma medida de conformidade regulamentar em condições padronizadas. Não descreve exatamente a sua exposição real durante todo o dia, porque essa exposição muda conforme a distância ao corpo, a qualidade do sinal, a potência usada pelo telefone, a rede, o tipo de utilização e até a forma como segura o aparelho.

O caso do iPhone 12 em França

O caso francês tornou o SAR mais conhecido fora dos círculos técnicos.

Em 2023, a ANFR testou o iPhone 12 e concluiu que o aparelho excedia o limite de SAR aplicável aos membros. A Apple preparou depois uma atualização de software que foi validada pela autoridade francesa, permitindo que o valor voltasse a cumprir o limite regulamentar.

O caso é interessante por duas razões.

A primeira: mostra que estes testes não são apenas teoria. As autoridades podem verificar aparelhos já colocados no mercado e exigir correções.

A segunda: lembra que muitos utilizadores só pensam em bateria, câmara, ecrã e preço quando compram um telemóvel. A informação regulamentar fica lá, discreta, como aquela gaveta do manual que ninguém abre — até ao dia em que passa a interessar.

O SAR é um “nível de perigo”?

Não exatamente.

Um valor SAR mais baixo significa, em condições de teste, menor absorção de energia de radiofrequência. Mas isso não quer dizer automaticamente que um telemóvel com SAR mais baixo exponha sempre menos o utilizador em todas as situações reais.

Na prática, um telefone com boa receção pode transmitir com menos potência do que um telefone numa zona de fraco sinal. Uma chamada longa no carro, numa cave ou numa zona rural com pouca rede pode exigir mais esforço do aparelho do que uma chamada curta junto a uma janela com sinal forte.

Por isso, o SAR é uma informação útil — especialmente na compra de um equipamento — mas não deve ser lido como uma escala simples de “bom” ou “mau”.

Como verificar o SAR do seu telemóvel

Há várias formas de encontrar esta informação.

A primeira é consultar o manual do equipamento ou a secção de informações legais e regulamentares no próprio telefone. Em muitos modelos, esta informação aparece nas definições do sistema, em áreas como “Informações legais”, “Regulamentação”, “Segurança” ou “Exposição a radiofrequência”.

Em alguns telemóveis, especialmente Android, também pode experimentar marcar:

*#07#

Nem sempre funciona, mas em certos modelos abre diretamente a página de informação sobre exposição RF ou SAR.

Outra opção é procurar online pelo modelo exato do telemóvel acompanhado de termos como:

  • “SAR”
  • “Specific Absorption Rate”
  • “RF exposure”
  • “informação SAR”

É importante procurar o modelo exato, não apenas o nome comercial. Um mesmo telefone pode existir em variantes diferentes conforme o mercado.

Também pode consultar bases de dados públicas, como a pesquisa SAR do Bundesamt für Strahlenschutz, a autoridade alemã de proteção radiológica, ou os dados publicados pela ANFR em França.

O que aumenta ou reduz a exposição?

A regra mais simples é esta: a distância ajuda muito.

O telemóvel não expõe o corpo da mesma forma quando está colado ao ouvido, pousado na mesa, dentro do bolso ou a um metro de distância em altifalante.

Também importa a qualidade do sinal. Quando o sinal é fraco, o aparelho pode aumentar a potência de transmissão para manter a ligação. É por isso que chamadas longas em zonas com má rede podem representar uma exposição maior do que chamadas feitas com sinal forte.

A duração também conta. Uma chamada de dois minutos não é o mesmo que uma chamada de uma hora com o telefone encostado à cabeça. E usar dados móveis intensivamente, sobretudo em zonas de fraca cobertura, pode fazer o aparelho trabalhar mais.

Depois há a forma como transportamos o telefone. O hábito de o levar no bolso das calças, encostado ao corpo, durante todo o dia, não é obrigatório. Às vezes basta colocá-lo na mala, no bolso exterior do casaco ou em cima da mesa.

Rasheed Kemy / Unsplash

Como reduzir a exposição sem exageros

Não é preciso embrulhar o telefone em papel de alumínio, comprar autocolantes milagrosos ou passar a viver como se a rede móvel fosse uma personagem de filme de terror.

Alguns gestos simples chegam:

  • Use o altifalante quando puder.
  • Prefira auriculares, sobretudo em chamadas longas.
  • Envie mensagens quando uma chamada não for necessária.
  • Evite chamadas longas em locais com sinal muito fraco.
  • Não durma com o telemóvel encostado à cabeça.
  • Use o modo avião quando não precisa de estar contactável.
  • Evite transportar o telemóvel permanentemente colado ao corpo.
  • Faça download de músicas, mapas ou podcasts por Wi-Fi antes de sair, para reduzir uso intensivo de dados móveis em zonas de fraca rede.

São medidas pequenas. Mas têm uma vantagem: não exigem medo, apenas distância e bom senso.

E os outros aparelhos em casa?

Vivemos rodeados de dispositivos sem fios: routers Wi-Fi, computadores, tablets, auscultadores Bluetooth, relógios inteligentes, colunas, televisões, alarmes, contadores inteligentes e mais uma pequena coleção de objetos que prometiam simplificar a vida e acabaram a pedir atualizações às duas da manhã.

Mas nem todos emitem da mesma forma, com a mesma potência ou à mesma distância do corpo. Não faz sentido somar tudo como se fossem recibos de supermercado.

O que faz sentido é olhar para os hábitos mais próximos do corpo e mais repetidos: o telemóvel no bolso, o telefone junto à cabeça durante chamadas longas, o aparelho na cama, o uso intensivo com sinal fraco.

É aí que pequenas mudanças têm mais impacto.

Devemos ter medo?

Medo, não. Atenção, sim.

A investigação científica disponível não justifica transformar o telemóvel num inimigo doméstico. A Organização Mundial da Saúde continua a acompanhar o tema, mas indica que, abaixo dos níveis que causam aquecimento dos tecidos, a investigação não encontrou evidência consistente de efeitos adversos para a saúde.

Em 2024, uma revisão encomendada pela OMS também não encontrou associação entre o uso de telemóveis e o aumento do risco de tumores cerebrais, apesar do enorme crescimento do uso de dispositivos móveis nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, a prudência continua a ser razoável, sobretudo quando reduzir a exposição é fácil e não custa praticamente nada.

A melhor atitude talvez seja esta: continuar a usar a tecnologia, mas não viver colado a ela. Não por alarmismo, mas por higiene digital, descanso mental e uma relação um pouco mais saudável com o objeto que mais vezes tocamos ao longo do dia.

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No fim, a melhor distância talvez seja também mental

Verificar o SAR do telemóvel é útil. Saber como a exposição muda com a distância, a duração e a qualidade do sinal também. Mas talvez a parte mais interessante desta conversa seja menos técnica.

O telemóvel está sempre perto. No bolso, na mão, na mesa, na cama, no carro, na caminhada, no sofá. Tornou-se despertador, mapa, carteira, máquina fotográfica, bloco de notas, jornal, agenda e companhia de fila.

Reduzir a exposição à radiofrequência pode começar com o altifalante, os auriculares ou o modo avião. Mas também pode começar com uma pergunta mais simples: preciso mesmo de o ter aqui, agora, tão perto?

Às vezes, afastar o telemóvel alguns centímetros é apenas uma medida de prudência. Outras vezes, é o início de uma pequena paz.

Nota de saúde: Este artigo é apenas informativo e não substitui orientação personalizada de um profissional de saúde ou de uma autoridade competente em proteção radiológica.

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