Vida Equilibrada

Corda de Atracção: Será Que Uma Guitarra Torna Mesmo Um Homem Mais Interessante?

Durante anos, repetiu-se a ideia de que um homem com uma guitarra se tornava automaticamente mais atraente. Mas talvez o verdadeiro encanto não esteja nas seis cordas — esteja no que elas sugerem: criatividade, atenção e uma vida interior.
Jacek Dylag / Unsplash
O essencial
  • Um estudo francês muito citado sugeria que homens com guitarra pareciam mais atraentes, mas esse artigo foi entretanto retirado.
  • Outros estudos indicam que a música pode influenciar a percepção de atracção, embora o efeito não seja tão simples como “segurar uma guitarra”.
  • Mais do que o instrumento, talvez o atractivo esteja no que ele comunica: criatividade, sensibilidade, disciplina e presença.
Por Duarte · 24 de agusto de 2023 · Leitura: 3 minutos Duarte escreve sobre cultura, curiosidades e pequenas explicações do quotidiano — daquelas coisas que vemos muitas vezes, mas raramente paramos para compreender.

A velha fantasia do homem com guitarra

Há imagens que parecem vir prontas com banda sonora. Um homem sentado num sofá com uma guitarra. Uma mão distraída nas cordas. A promessa de que, a qualquer momento, pode surgir uma canção, uma confidência ou, nos casos mais perigosos, uma versão muito séria de “Wonderwall”.

A ideia de que a guitarra aumenta o charme masculino é antiga o suficiente para já merecer reforma, mas persistente o suficiente para continuar a aparecer em conversas, filmes, anúncios e perfis de encontros. Há qualquer coisa naquele objecto — madeira, cordas, postura, intenção — que parece acrescentar uma camada de mistério a quem o segura.

Durante algum tempo, até a ciência pareceu concordar.

Um estudo francês, publicado na revista Psychology of Music, tornou-se famoso por uma experiência simples: um jovem abordava mulheres na rua e pedia o número de telefone. Numa condição, não levava nada. Noutra, levava um saco de desporto. Noutra, levava uma caixa de guitarra. Os resultados divulgados eram deliciosos para guitarristas e péssimos para sacos de ginásio: a guitarra parecia aumentar bastante a taxa de sucesso.

Era quase demasiado perfeito.

E, como tantas coisas quase demasiado perfeitas, acabou por desafinar.

Quando a ciência também precisa de afinação

O tal estudo francês foi mais tarde retirado. A decisão surgiu depois de preocupações sobre a fiabilidade dos dados, questões éticas e falta de informação sobre consentimento e aprovação do estudo.

Isto muda o artigo? Muda — e para melhor.

Porque a versão mais interessante desta história já não é “a ciência provou que basta pegar numa guitarra”. A versão mais interessante é perguntar porque é que todos quisemos acreditar nisso tão depressa.

Talvez porque a guitarra funciona como atalho visual. Em poucos segundos, parece dizer: esta pessoa tem paciência para aprender. Tem ritmo. Tem alguma vida interior. Talvez saiba ouvir. Talvez saiba criar ambiente. Talvez tenha passado horas sozinho a repetir a mesma passagem até os dedos obedecerem.

Ou talvez seja apenas bonito imaginar que o amor ainda pode começar com uma canção.

O outro estudo da guitarra

Antes do estudo francês, uma investigação israelita tinha testado uma ideia semelhante no Facebook. Cem estudantes universitárias solteiras receberam um pedido de amizade de um perfil masculino. Em metade dos casos, a fotografia mostrava o homem com uma guitarra. Na outra metade, aparecia sem o instrumento.

O perfil com guitarra recebeu mais respostas positivas.

Convém não exagerar: era uma amostra pequena, num contexto específico, com mulheres jovens e uma situação artificial. Mas a ideia continua curiosa. A guitarra, ali, não tocava. Não havia som, talento, voz, melodia, dedicação real. Havia apenas a imagem de alguém associado à música.

Ou seja, talvez a atracção não estivesse na música. Talvez estivesse no símbolo.

E os símbolos são perigosos precisamente porque trabalham depressa.

O que a guitarra promete sem dizer

Uma guitarra não prova carácter. Não prova inteligência. Não prova ternura. Não prova que alguém saiba lavar a loiça sem fazer disso uma epopeia doméstica.

Mas sugere coisas.

Sugere criatividade. Sugere sensibilidade. Sugere tempo dedicado a uma prática. Sugere uma pessoa que talvez tenha um mundo interior. E, num tempo em que tantas interacções começam por imagens rápidas, qualquer sinal de profundidade ganha peso.

A questão é que o sinal pode ser verdadeiro ou pode ser apenas cenário. Há homens profundamente interessantes que nunca tocaram uma nota. Há guitarristas insuportáveis que conseguem transformar três acordes numa ameaça emocional. Há músicos generosos, atentos e brilhantes. E há músicos que confundem “expressar sentimentos” com obrigar uma sala inteira a ouvir a sua dor em Ré menor.

A guitarra não salva ninguém.

Mas pode abrir uma porta.

Talvez não seja a guitarra, talvez seja a atenção

Um estudo posterior publicado na Frontiers in Psychology complicou ainda mais a narrativa. Os investigadores não encontraram uma vantagem geral para músicos face a não músicos em avaliações de atractividade. Mas encontraram uma diferença interessante: pessoas descritas como fazendo música em privado foram avaliadas de forma mais positiva do que músicos em contexto público.

Isto é quase poético.

Talvez o atractivo não esteja no exibicionismo. Talvez esteja na sugestão de intimidade. Não no homem que leva a guitarra para todos os sítios como quem transporta uma máquina de sedução portátil, mas na pessoa que tem uma prática sua, um prazer seu, uma disciplina sua.

A atracção, quando é mais bonita, raramente nasce apenas da performance. Nasce da atenção.

A atenção de aprender uma música. A atenção de escutar. A atenção de perceber quando é hora de tocar — e, igualmente importante, quando é hora de pousar a guitarra.

O problema do truque

Há sempre o risco de transformar isto num manual de conquista: compre uma guitarra, aprenda três acordes, incline ligeiramente a cabeça, espere resultados.

Por favor, não.

A vida já tem embaraços suficientes.

O que talvez valha a pena retirar desta pequena história não é que a guitarra funciona como isco. É que as pessoas se sentem atraídas por sinais de vida interior. Por alguém que se interessa por alguma coisa. Por uma pessoa que cultiva uma aptidão, uma paixão, uma forma de expressão.

Pode ser guitarra. Pode ser cozinha. Pode ser fotografia. Pode ser jardinagem. Pode ser dançar mal mas com alegria. Pode ser saber ouvir alguém até ao fim sem transformar a conversa num podcast pessoal.

O instrumento é secundário. A presença é que conta.

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A música como promessa de mundo interior

Talvez seja por isso que os músicos continuam a ocupar um lugar tão particular na imaginação romântica. A música parece atravessar uma zona onde as palavras, sozinhas, nem sempre chegam. Uma pessoa que toca pode parecer capaz de dizer sem explicar. De sentir sem se defender. De criar uma atmosfera onde antes havia apenas silêncio.

Claro que isto também é fantasia.

Mas as relações começam muitas vezes assim: com uma fantasia pequena, uma impressão, uma hipótese. Depois a realidade aparece e faz o seu trabalho. Às vezes confirma. Às vezes desmente. Às vezes mostra que a pessoa sabe tocar lindamente, mas não sabe responder a uma mensagem com um mínimo de humanidade.

A guitarra pode atrair o olhar. O resto precisa de substância.

Então, a guitarra ajuda?

Talvez ajude. Mas não da forma simples que os títulos antigos prometiam.

Não é a guitarra como objecto mágico. É aquilo que ela pode representar: criatividade, treino, vulnerabilidade, ritmo, sentido estético, coragem para falhar até soar melhor. E mesmo assim, só funciona se houver ali uma pessoa que mereça a metáfora.

Porque, no fim, ninguém devia apaixonar-se por um acessório.

A guitarra pode chamar a atenção. Pode criar conversa. Pode dar uma graça inicial. Mas depois vem a parte que nenhum estudo resolve: o que se faz com essa atenção?

A pessoa é interessante? É gentil? É curiosa? Sabe rir? Sabe escutar? Tem mundo próprio? Ou apenas aprendeu que um instrumento dá boas fotografias?

É aqui que a música deixa de ser truque e passa a ser verdade.

A BOA VIDA

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