Em 2025, a violência contra as mulheres em Portugal continua a ser inaceitável
Em 2025, Portugal volta a ser confrontado com um número que não devia ser possível normalizar: pelo menos 24 mulheres assassinadas até meados de novembro, segundo monitorização independente. Entre queixas que continuam em níveis muito elevados e uma realidade europeia que permanece estrutural, este artigo olha para o que sabemos — e para o que ainda falha — quando a violência contra as mulheres persiste apesar de leis, campanhas e redes de apoio.

3 pontos essenciais
- Pelo menos 24 mulheres foram assassinadas em Portugal entre janeiro e meados de novembro de 2025, segundo monitorização independente, maioritariamente em contextos de violência doméstica ou relacional.
- O número coloca 2025 ao nível de 2022, um dos anos mais graves da última década, acima de 2023 (17 mortes) e 2024 (19 mortes).
- Apesar de avanços legais, maior visibilidade pública e redes de apoio, a violência contra as mulheres permanece estrutural e persistente, em Portugal e no espaço europeu.
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Publicado: 2026
Em 2025, Portugal voltou a confrontar-se com um número que não deveria ser possível normalizar.
De acordo com a monitorização do Observatório de Mulheres Assassinadas, pelo menos 24 mulheres foram mortas em Portugal entre janeiro e meados de novembro de 2025. Como já referido no nosso ABV News sobre a violência contra as mulheres em Portugal em 2025, a maioria destes crimes ocorreu em contextos de violência doméstica ou em relações de intimidade — espaços que deveriam representar segurança e proteção.
Os dados ainda não correspondem ao balanço oficial final do ano, mas são suficientemente claros para situar 2025 entre os anos mais graves do período recente. O número iguala 2022, quando também se registaram 24 mulheres assassinadas, e ultrapassa os valores de 2023, com 17 mortes, e 2024, com 19.
Observados em conjunto, estes números não descrevem um percurso de superação. Revelam antes uma realidade que oscila, mas não se resolve.
Uma década de maior consciência, sem rutura decisiva
Portugal mudou de forma significativa na última década. A violência doméstica passou a ser tratada como crime público. Os mecanismos de denúncia tornaram-se mais acessíveis. As campanhas públicas contribuíram para quebrar o silêncio e o estigma. As redes de apoio às vítimas expandiram-se e ganharam maior visibilidade.
Apesar disso, os indicadores mantêm-se elevados. Nos últimos anos, as forças de segurança registaram mais de 30 mil queixas de violência doméstica por ano. Estes números refletem, em parte, uma maior capacidade de denúncia e uma sociedade mais consciente. Mas revelam também a permanência de um problema estrutural que não diminuiu de forma consistente.
Em 2025, as forças de segurança portuguesas registaram números elevados de ocorrências de violência doméstica, com mais de 25 327 queixas entre janeiro e setembro, o valor mais alto dos últimos sete anos, segundo dados da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género compilados pela PSP e GNR
O ano de 2022 permanece como um ponto de referência incontornável. Para além do número elevado de mulheres assassinadas, foi também um dos anos com mais queixas registadas. Muitos analistas associam esse pico às consequências prolongadas do período pandémico — isolamento, pressão económica, quebra de redes informais de apoio e dificuldades acrescidas no acesso a serviços.
O que se seguiu, contudo, não foi uma inversão clara. Houve variação, mas não transformação.

Portugal no contexto europeu
A realidade portuguesa insere-se num padrão mais amplo observado em vários países europeus. Dados compilados por entidades da União Europeia, incluindo o Eurostat, indicam que a violência contra as mulheres ocorre maioritariamente em contextos privados e relacionais, sendo frequentemente exercida por parceiros ou ex-parceiros.
Embora os números absolutos variem de país para país, a estrutura do fenómeno é semelhante. Estudos europeus apontam ainda para um dado essencial: uma parte significativa das situações de violência nunca chega a ser denunciada. O receio de represálias, a dependência económica, o medo de desagregação familiar ou a desconfiança nas instituições continuam a pesar na decisão de denunciar.
É pouco plausível que Portugal seja exceção neste quadro. Assim, mesmo números elevados de queixas podem representar apenas uma fração da realidade vivida.
Para lá das estatísticas
Os homicídios em contexto de violência doméstica tendem a ter taxas de resolução elevadas, precisamente porque os agressores são, na maioria dos casos, conhecidos das vítimas. Mas a resolução judicial não apaga a pergunta que atravessa cada caso: o que aconteceu antes?
Antes da violência extrema, há frequentemente um percurso marcado por controlo, intimidação, isolamento e normalização do medo. Em muitos casos, esse percurso começa com formas subtis de manipulação emocional, como o chamado love bombing, que já analisámos na secção Sociedade. Sinais que surgem em consultas médicas, em escolas, no local de trabalho, em conversas privadas — muitas vezes sem resposta adequada ou atempada.
As estatísticas conseguem quantificar o desfecho. Não conseguem traduzir o processo.
2025 como momento de responsabilidade
Falar de violência contra as mulheres em 2025 exige clareza: a sua persistência é inaceitável. Não por ser inesperada, mas precisamente porque continua a ocorrer num contexto de maior conhecimento, mais legislação e mais recursos.
Portugal dispõe hoje de instrumentos que não existiam há vinte anos. O desafio atual não é apenas reagir, mas intervir mais cedo, antes de a violência escalar. Isso implica reforçar a deteção precoce nos serviços de saúde, investir na educação para relações saudáveis, garantir cobertura territorial equitativa dos serviços de apoio e assegurar acompanhamento consistente após a denúncia.
A cifra de 24 mulheres assassinadas até meados de novembro de 2025 não deve ser absorvida como mais um dado anual. Deve ser entendida como um sinal de urgência.
Para onde caminhamos
A história recente mostra que o problema não se resolve apenas com leis, nem apenas com campanhas. Resolve-se com continuidade, coordenação e prevenção sustentada.
Portugal não é um país indiferente a esta realidade. Mas a diferença entre reconhecer e transformar continua por cumprir.
O futuro exige mais do que gestão do dano. Exige que menos mulheres cheguem ao ponto em que denunciar se torna a única saída — ou, tragicamente, já não chega a tempo.
Os números mostram-nos onde estamos. A responsabilidade coletiva determinará para onde vamos.
Se é vítima de violência, ou conhece alguém que possa estar em risco, saiba que não está só. Em situação de perigo imediato, ligue 112. A Linha Nacional de Emergência Social (144) e a Linha de Informação às Vítimas de Violência Doméstica (800 202 148) oferecem apoio gratuito, confidencial e permanente.
Nota editorial
Os dados relativos a 2025 baseiam-se em monitorização até meados de novembro por entidades da sociedade civil. Os números finais oficiais poderão sofrer ajustamentos aquando da publicação dos balanços anuais. As estatísticas de queixas refletem casos denunciados, não a totalidade das situações vividas.