Vida Equilibrada

Saudade: a palavra portuguesa que mora entre a falta e o amor

A saudade é uma palavra pequena para uma coisa enorme: a presença discreta de quem, de onde, ou daquilo que já não está connosco — mas continua, de alguma forma, a viver em nós.
Matthew Henry / Unsplash
O essencial
  • A saudade mistura ausência, memória, desejo e afecto — por isso é mais complexa do que uma simples “falta”.
  • A palavra tem raízes antigas ligadas à ideia de solidão, mas ganhou um peso cultural muito próprio em português.
  • Sentir saudade também pode ser uma forma de reconhecer o valor do que vivemos, amámos ou perdemos.
Por Clara · Atualizado a 1 de junho de 2023 · Leitura: 3 minutos Clara Monteiro escreve sobre lugares, cidades e pequenas descobertas que revelam a beleza de Portugal.

Há palavras que parecem demasiado pequenas para aquilo que carregam.

“Saudade” é uma delas.

Cabe numa mensagem curta, numa despedida ao telefone, numa frase dita à pressa — “tenho saudades tuas” — mas raramente fica só por aí. A saudade entra pela memória, pelo corpo, pela casa. Pode aparecer num cheiro, numa música antiga, numa rua onde já não passamos há anos ou naquele prato que alguém fazia de uma maneira que mais ninguém consegue repetir.

E talvez seja por isso que gostamos tanto de dizer que a saudade é intraduzível.

Não porque as outras línguas sejam pobres, claro. Cada idioma tem as suas subtilezas, os seus esconderijos emocionais. Mas em português, “saudade” ganhou uma vida própria. Não é apenas “falta”. Não é apenas nostalgia. Não é apenas tristeza.

É uma mistura difícil de arrumar: dói, mas também aquece.

Segundo o Dicionário Priberam, saudade pode ser a “lembrança grata” de alguém ausente, de um momento passado ou de algo de que nos vemos privados, mas também o pesar causado por essa privação. Ou seja: a palavra já nasce dividida entre ternura e perda.

O que sentimos quando sentimos saudade

A saudade costuma começar com uma ausência.

Alguém partiu. Uma fase acabou. Uma casa deixou de ser nossa. Um tempo passou sem pedir licença, como sempre faz, o mal-educado.

Mas a saudade não é apenas reparar que algo desapareceu. É perceber que esse algo teve importância. Que deixou marca. Que, mesmo ausente, continua a organizar uma parte de nós.

Podemos ter saudades de pessoas, naturalmente. Mas também de versões antigas de nós próprios. De uma cidade onde fomos felizes. De um verão específico. Da voz de alguém. De uma cozinha cheia ao domingo. De um país visto da janela de outro país.

A saudade é curiosa porque não apaga a alegria. Muitas vezes, vem precisamente dela.

Ninguém sente saudade do que não tocou, de alguma forma, a sua vida.

Sammy-Sander / Pixabay

É mesmo uma palavra intraduzível?

Depende do que queremos dizer com “traduzir”.

É possível explicar saudade noutras línguas. É possível aproximá-la de nostalgia, longing, missing, homesickness, yearning. Mas nenhuma dessas palavras, sozinha, cobre exactamente o mesmo terreno emocional.

A Infopédia regista a origem da palavra no latim solitāte, associado à ideia de solidão. A Ciberdúvidas também aponta para o latim solitate(m), com formas antigas como soydade e suydade no português arcaico.

A palavra, portanto, vem de longe. Mas o que a tornou tão portuguesa não foi apenas a etimologia. Foi o uso. Foi a literatura, a música, a emigração, o mar, as partidas, os regressos prometidos e tantas vezes adiados.

Foi a vida.

A saudade também pode ser boa

Há uma frase que se ouve muito: “é bom ter saudades”.

À primeira vista, parece uma contradição. Quem é que quer sentir falta? Quem é que quer carregar um aperto no peito?

Mas talvez a frase queira dizer outra coisa. Que a saudade, por mais dolorosa que seja, confirma que houve amor, ligação, pertença. Que alguma coisa valeu a pena.

É por isso que às vezes não queremos “curar” completamente a saudade. Queremos apenas aprender a viver com ela sem que nos puxe sempre para trás.

Há saudades que pedem uma chamada. Outras pedem uma visita. Outras pedem silêncio. E há aquelas que já não podem ser resolvidas — só honradas.

Essas talvez sejam as mais profundas.

Oladimeji Odunsi / Unsplash

Uma palavra portuguesa, mas não uma prisão portuguesa

Durante muito tempo, a saudade foi tratada quase como uma prova de identidade nacional. Teixeira de Pascoaes, figura central do Saudosismo, viu nela uma espécie de força espiritual portuguesa; a RTP Ensina descreve-o como mentor desse movimento, que colocava a saudade no centro de uma ideia de renovação cultural e poética do país.

Mas talvez seja mais bonito — e mais verdadeiro — não transformar a saudade numa bandeira demasiado apertada.

A saudade pode ser portuguesa sem deixar de ser humana.

Portugal deu-lhe uma palavra especialmente precisa. Deu-lhe música, poesia, fado, cartas de emigrantes, fotografias em molduras antigas, conversas à mesa e malas feitas à pressa. Mas o sentimento em si não precisa de passaporte.

O que a língua portuguesa fez foi dar-lhe casa.

Porque continuamos a voltar a ela

Talvez a saudade nos acompanhe tanto porque vivemos sempre entre tempos.

Estamos aqui, mas lembramo-nos de outro lugar. Somos adultos, mas ainda trazemos dentro a criança que fomos. Seguimos em frente, mas há nomes, cheiros e vozes que caminham connosco.

A saudade não nos prende necessariamente ao passado. Pode, quando é pesada demais. Mas também pode fazer o contrário: lembrar-nos do que merece ser cuidado agora.

Telefonar enquanto ainda há tempo. Visitar. Dizer. Guardar menos para depois.

Porque a saudade, no fundo, é uma professora discreta. Ensina-nos que nada é garantido, que as pessoas são frágeis, que os dias comuns um dia se tornam memória.

E que algumas ausências, por mais silenciosas que pareçam, continuam cheias de presença.

A saudade talvez seja intraduzível não por ser impossível de explicar, mas porque nunca se sente da mesma maneira duas vezes. Cada pessoa leva a sua: uma casa, uma voz, um verão, um país, alguém que partiu. E, no meio dessa falta, há sempre uma pequena prova de amor.
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