Bem-Estar

Dúzia Suja 2024: as frutas e legumes com mais resíduos de pesticidas, segundo a EWG

A lista “Dirty Dozen” da EWG voltou a colocar morangos, espinafres, uvas e pêssegos entre os produtos com mais resíduos de pesticidas. Mas a leitura certa não é entrar em pânico — é comprar com mais informação.

Jacopo Maia / Unsplash
O essencial
  • A “Dúzia Suja” é uma lista anual da EWG baseada em dados oficiais dos Estados Unidos.
  • Em 2024, morangos, espinafres, couves, uvas e pêssegos surgiram entre os produtos com mais resíduos de pesticidas.
  • A lista é útil para orientar compras, mas não deve servir para afastar ninguém da fruta e dos legumes.
Por Marta · 4 de abrjunho de 2024 · Leitura: 6 minutos Marta Soares escreve sobre casa, rotinas simples e pequenos gestos do dia a dia — aqueles detalhes discretos que tornam os espaços mais bonitos, úteis e vividos.

Uma lista útil, não uma sentença

Todos os anos, a Environmental Working Group, mais conhecida por EWG, publica uma lista que costuma gerar manchetes, dúvidas e uma pequena crise existencial junto à banca da fruta.

Chama-se “Dirty Dozen”, ou “Dúzia Suja”, e reúne os doze frutos e legumes convencionais que, segundo a análise da organização, apresentam maior presença de resíduos de pesticidas nos Estados Unidos.

A palavra “suja” é eficaz, sim. Talvez até eficaz demais.

Porque uma coisa é dizer que determinado alimento tende a apresentar mais resíduos. Outra é transformar morangos, uvas ou pêssegos em vilões domésticos. E ninguém precisa de chegar ao supermercado com medo da salada.

A leitura mais útil é outra: esta lista pode ajudar-nos a decidir onde vale mais a pena comprar biológico, quando o orçamento permite, e onde podemos escolher convencional com mais tranquilidade.

A Dúzia Suja de 2024

Em 2024, a EWG colocou estes produtos na lista dos doze com mais resíduos de pesticidas:

  1. Morangos
  2. Espinafres
  3. Couve kale, couve-galega e folhas de mostarda
  4. Uvas
  5. Pêssegos
  6. Peras
  7. Nectarinas
  8. Maçãs
  9. Pimentos e malaguetas
  10. Cerejas
  11. Mirtilos
  12. Feijão-verde

É uma lista que chama a atenção porque inclui alimentos que muitas pessoas compram todas as semanas. Morangos para o pequeno-almoço. Espinafres para a sopa ou a salada. Uvas para petiscar. Maçãs para ter sempre em casa, com aquela confiança antiga de quem acredita que uma maçã resolve metade da vida.

Mas o ponto não é deixar de os comer.

Aliás, até a própria EWG sublinha que os benefícios de comer fruta e legumes continuam a ser importantes, sejam biológicos ou convencionais. A recomendação não é trocar a taça de morangos por bolachas. É escolher com mais informação.

O que a EWG analisou

A lista de 2024 foi feita a partir de dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e da Food and Drug Administration, que testam amostras de frutas e legumes.

Isto é relevante porque os testes não são feitos em produtos acabados de sair do campo, cobertos de terra e drama. Muitas amostras são analisadas depois de procedimentos como lavagem, descasca ou limpeza, dependendo da entidade que faz o teste.

Mesmo assim, segundo a EWG, foram encontrados resíduos de pesticidas em muitos produtos convencionais. Nos itens da Dúzia Suja, a organização afirma que 95% das amostras continham pesticidas.

É aqui que a lista ganha utilidade prática: não como diagnóstico individual de cada maçã, pera ou morango que compramos, mas como fotografia geral de tendências.

E isto aplica-se a Portugal?

Com cuidado.

A lista da EWG é americana. Usa dados de produtos vendidos e testados nos Estados Unidos, com práticas agrícolas, cadeias de abastecimento e regras próprias. Por isso, não deve ser lida como uma classificação oficial dos alimentos vendidos em Portugal ou na União Europeia.

Na Europa, os resíduos de pesticidas também são monitorizados. A União Europeia tem limites máximos de resíduos e relatórios próprios, e em Portugal a DGAV coordena os controlos oficiais de resíduos de pesticidas em géneros alimentícios de origem vegetal e animal.

Ou seja: a Dúzia Suja não é “a lista portuguesa”.

Mas pode continuar a ser útil.

Muitos dos alimentos que aparecem repetidamente nestas listas — morangos, uvas, pêssegos, maçãs, peras, folhas verdes — também são produtos em que a questão dos resíduos costuma ser acompanhada de perto na Europa. Além disso, organizações como a PAN Europe têm chamado a atenção para a presença de pesticidas com PFAS, os chamados “químicos eternos”, em frutas e legumes europeus.

A conclusão sensata é esta: a lista americana não substitui dados europeus ou portugueses, mas serve como ponto de partida para pensar melhor as compras.

Lewis Fagg / Unsplash

Biológico quando possível, sem culpa quando não dá

Comprar tudo biológico seria simples, se a vida fosse uma folha de Excel escrita por alguém que nunca viu o preço dos mirtilos em janeiro.

Na realidade, nem sempre é possível. Às vezes é caro. Às vezes não há. Às vezes o produto biológico está murcho e o convencional parece ter acabado de sair de uma sessão de beleza.

Por isso, uma abordagem mais realista é escolher prioridades.

Se costuma comprar alguns alimentos da Dúzia Suja todas as semanas e encontra uma versão biológica acessível, pode fazer sentido optar por essa versão. Morangos, espinafres, uvas ou maçãs podem ser bons candidatos.

Mas se o biológico não cabe no orçamento, a melhor escolha continua a ser comer fruta e legumes.

Uma alimentação com mais alimentos frescos não deve transformar-se num exercício de culpa. A ideia é reduzir exposição quando possível, não criar mais uma regra impossível para cumprir.

A controvérsia: presença não é o mesmo que perigo

Há um ponto importante nesta conversa: encontrar resíduos de pesticidas num alimento não significa automaticamente que esse alimento represente perigo para a saúde.

É aqui que entram os críticos da Dúzia Suja. O argumento principal é que os resíduos encontrados estão, muitas vezes, abaixo dos limites legais considerados seguros pelas autoridades reguladoras.

O Programa de Dados de Pesticidas do USDA, por exemplo, tem indicado que a esmagadora maioria das amostras analisadas fica abaixo dos limites estabelecidos pela EPA.

Do lado da EWG, a resposta é diferente: os limites legais podem não responder a todas as preocupações, sobretudo quando se pensa em exposição repetida, crianças, misturas de químicos e substâncias com possíveis efeitos hormonais.

No fundo, a discussão não é apenas “tem ou não tem pesticida?”. É também: quanto tem, que pesticida é, com que frequência aparece, em que alimentos, em que grupos da população e que nível de precaução queremos aplicar?

Para quem está no corredor do supermercado, a versão curta talvez seja esta: não vale a pena entrar em pânico, mas também não é absurdo querer reduzir resíduos quando isso é simples e possível.

No seu email

Receba algo que vale a pena ler

De vez em quando, enviamos histórias, ideias e pequenos detalhes que tornam o dia mais leve.

Quase lá. Verifique o seu email para confirmar a subscrição.

Não foi possível concluir a subscrição. Tente novamente dentro de instantes.

Lavar ajuda?

Ajuda, mas não faz milagres.

Lavar frutas e legumes em água corrente remove sujidade, alguns microrganismos e parte dos resíduos superficiais. Para produtos mais firmes, como melões, pepinos ou batatas, pode usar-se uma escova limpa.

O que não é recomendado é lavar alimentos com detergente, sabão ou produtos de limpeza. Fruta não precisa de espuma para parecer mais virtuosa.

Também pode fazer sentido remover folhas exteriores de algumas hortícolas, cortar partes danificadas e lavar antes de descascar, para evitar transferir sujidade da casca para o interior com a faca.

Descascar pode reduzir alguns resíduos, mas também retira fibras e nutrientes presentes na casca. Como quase tudo na vida adulta, há uma troca.

Como usar a lista na prática

A Dúzia Suja funciona melhor como ferramenta simples, não como mandamento.

Se o orçamento permitir, pode escolher biológico para alguns produtos da lista que compra com frequência. Não precisa de ser tudo. Pode começar por um ou dois.

Se compra morangos todas as semanas na época, talvez faça sentido procurar uma opção biológica. Se come espinafres diariamente em batidos ou saladas, pode fazer o mesmo. Se compra uvas só de vez em quando, talvez não seja aí que precisa de gastar mais.

Também pode variar mais. Em vez de comprar sempre os mesmos frutos, alternar entre produtos diferentes ajuda a diversificar a alimentação e, potencialmente, a exposição.

E quando sair a lista dos “Quinze Limpos”, ela serve para o outro lado da decisão: perceber quais os produtos convencionais que costumam ter menos resíduos e onde pode poupar sem tanta hesitação.

O que importa

A Dúzia Suja de 2024 não deve ser lida como uma lista de alimentos proibidos.

Deve ser lida como uma ferramenta de escolha.

Se ajuda a decidir quando comprar biológico, ótimo. Se ajuda a lavar melhor os alimentos, também. Se lembra que nem todos os produtos frescos têm o mesmo perfil de resíduos, melhor ainda.

Mas não deve fazer ninguém comer menos fruta e legumes.

A alimentação saudável não vive de medo. Vive de escolhas repetidas, possíveis e informadas.

Morangos continuam a ser morangos.

Só talvez mereçam, quando possível, uma compra mais atenta — e uma boa passagem por água antes de chegarem à taça.

Fontes e leitura recomendada
Partilhe este artigo:
A BOA VIDA

Recent Posts

Dúzia Suja 2026 e Quinze Limpos: o que comprar biológico — e onde poupar

A lista de 2026 da EWG volta a destacar espinafres, couves, morangos e uvas entre…

5 days ago

Quando a casa nos cansa: o peso silencioso das pequenas tarefas

A casa pode parecer arrumada e ainda assim cansar-nos. Um olhar pessoal sobre o peso…

7 days ago

Respiração em quadrado: a técnica de 5 minutos que ajuda a acalmar o corpo

Uma técnica simples de respiração, feita em quatro tempos iguais, pode ajudar a acalmar o…

1 week ago

Navegar em Modo Privado Não Oferece a Proteção que Você Esperaria — Versão 2026 (Atualizada, Real, Sem Ilusões)

A janela privada promete uma internet mais discreta: sem histórico, sem cookies guardados, sem aquele…

1 week ago

FPS explicado: o número grande que quase toda a gente interpreta mal

O FPS é importante, mas não diz tudo. Entenda o que o número no frasco…

2 weeks ago

Protetor solar amigo dos recifes: o que significa realmente?

O rótulo diz “amigo dos recifes”, mas o que significa realmente? Guia simples para escolher…

2 weeks ago