John Lennon, Yoko Ono e o quarto de hotel onde a paz ganhou uma canção
John Lennon e Yoko Ono passaram uma semana de pijama num quarto de hotel em Montreal, rodeados de jornalistas, cartazes e convidados improváveis. O objetivo era simples: usar a fama para chamar a atenção para a paz. O resultado foi uma canção improvisada que acabaria por se tornar um dos maiores hinos anti-guerra do século XX.

A porta do quarto 1742 fechava-se atrás de jornalistas, fotógrafos, músicos, curiosos e amigos. Do lado de fora, Montreal seguia o seu ritmo normal. Do lado de dentro, John Lennon e Yoko Ono estavam sentados numa cama de hotel, rodeados de flores, cartazes escritos à mão e uma ideia que, mesmo hoje, continua a parecer quase impossível: e se a paz pudesse tornar-se contagiosa?
Em 1969, talvez ainda fosse possível acreditar nisso.
Mais de meio século depois, enquanto a guerra na Ucrânia continua, o conflito entre Israel e o Irão ameaça alargar-se, e o Sudão vive uma das maiores crises humanitárias do mundo, aquela frase repetida por Lennon continua a soar estranhamente atual: “All we are saying is give peace a chance.”
O bed-in que transformou um hotel num palco mundial
Depois do casamento em Gibraltar, em março de 1969, John Lennon e Yoko Ono decidiram usar a atenção mediática em torno da relação para fazer algo improvável: transformar a lua-de-mel numa campanha pela paz.
O plano inicial não era Montreal. Lennon e Yoko queriam fazer o segundo bed-in em Nova Iorque, mas John não pôde entrar nos Estados Unidos por causa de uma condenação por posse de canábis em 1968.
Ainda tentaram avançar a partir das Bahamas, mas o calor revelou-se insuportável. Depois de passarem por Toronto e conseguirem autorização temporária de entrada no Canadá, acabaram por escolher Montreal porque ficava suficientemente perto de Nova Iorque para garantir a atenção da imprensa americana.
O primeiro “Bed-In for Peace” aconteceu no Amsterdam Hilton, entre 25 e 31 de março. O segundo decorreu em Montreal, entre 26 de maio e 2 de junho, no então quarto 1742 do Hotel Queen Elizabeth.
Na verdade, o casal ocupou vários quartos contíguos — 1738, 1740, 1742 e 1744 — para acomodar jornalistas, convidados, equipamento e curiosos. Durante uma semana, o hotel transformou-se num estranho cruzamento entre conferência de imprensa, happening artístico e manifestação anti-guerra.
Lennon e Yoko recebiam jornalistas deitados na cama, vestidos de branco, rodeados por cartazes onde se lia “Hair Peace” e “Bed Peace”. O objetivo era simples: mostrar que o protesto não precisava de violência para ser poderoso.
Na altura, a guerra do Vietname dominava os noticiários. Jovens americanos eram enviados para combater, os protestos estudantis cresciam e a cultura popular começava a responder. Em vez de discursos políticos tradicionais, Lennon escolheu algo mais pop, mais imediato e mais estranho: ficar na cama e falar de paz.
O dia em que “Give Peace a Chance” nasceu
Na noite de 1 de junho de 1969, o quarto 1742 transformou-se num pequeno estúdio improvisado.
O engenheiro canadiano André Perry levou equipamento para o hotel e gravou a canção diretamente no quarto. Não havia isolamento acústico, não havia grande preparação e quase tudo foi feito em poucas horas.
Tommy Smothers tocou guitarra acústica. Os restantes ajudaram no coro, batendo palmas, repetindo a letra e enchendo o quarto de vozes. O resultado não parecia uma gravação de estúdio perfeita. Parecia exatamente o que era: um grupo de pessoas a cantar num quarto de hotel.
Talvez seja precisamente por isso que a música continua a funcionar.
Não há virtuosismo. Não há produção complicada. Há apenas uma frase repetida vezes sem conta, até se tornar impossível esquecê-la.
Curiosamente, embora “Give Peace a Chance” tenha sido lançada com crédito Lennon-McCartney, Paul McCartney não participou na escrita nem na gravação.
Numa entrevista à Playboy em 1980, Lennon admitiu que nem sabia bem porque tinha colocado o nome de Paul na canção: “Senti-me um pouco culpado por estar a lançar um single separado — o primeiro — e por me estar realmente a afastar dos Beatles.”
Lennon explicou também que os dois tinham um acordo desde a adolescência: qualquer música escrita separadamente continuaria a ser assinada por ambos, mesmo sem um acordo legal formal.
A música que saiu do quarto e entrou nas ruas

Lançada em julho de 1969 pela Plastic Ono Band, “Give Peace a Chance” tornou-se rapidamente um hino dos protestos contra a guerra do Vietname.
Meses depois, em novembro, centenas de milhares de manifestantes cantaram a canção durante a Marcha sobre Washington.
Na prática, Lennon tinha conseguido aquilo que procurava: transformar uma canção pop num slogan político.
Não era a única música anti-guerra da época. Edwin Starr lançou “War”; Marvin Gaye viria a gravar “What’s Going On”; e os Country Joe and the Fish já tinham escrito “I-Feel-Like-I’m-Fixin’-to-Die Rag”.
Mas “Give Peace a Chance” tinha uma vantagem sobre quase todas as outras: qualquer pessoa conseguia cantá-la.
A reação da Casa Branca e do FBI
Embora o bed-in tenha sido recebido com alguma ironia por parte da imprensa mais conservadora, a mensagem pacifista de Lennon começou rapidamente a incomodar uma América ainda mergulhada na guerra do Vietname.
Nos anos seguintes, já durante a presidência de Richard Nixon, canções anti-guerra como “Give Peace a Chance” passaram a ser vistas com desconfiança. Em 1971, pouco depois de Lennon se mudar para Nova Iorque e começar a aproximar-se de ativistas radicais contra a guerra, o FBI colocou-o sob vigilância.
“Se um bilião de pessoas pensassem em Paz, haveria Paz no nosso mundo”
John Lennon
Um ano depois, os serviços de imigração norte-americanos tentaram deportá-lo. Oficialmente, a justificação estava ligada a uma antiga condenação por posse de canábis no Reino Unido. Mas, para muitos historiadores, o verdadeiro problema era outro: Lennon tinha fama, influência e conseguia mobilizar jovens eleitores contra a guerra do Vietname e contra Nixon.
O FBI abriu um dossiê sobre ele, monitorizou contactos, concertos e entrevistas. Hoje, esses documentos continuam a ser um dos exemplos mais estranhos da forma como um músico pop conseguiu assustar a Casa Branca.
O quarto ainda existe — e continua a receber visitantes
O antigo quarto 1742 do Hotel Queen Elizabeth foi entretanto renumerado para suite 1742 e transformado numa espécie de pequeno museu.
Hoje, quem visita Montreal pode ficar no mesmo espaço onde Lennon e Yoko passaram aqueles dias.
A suite inclui referências ao bed-in, gravações, fotografias, cartazes e até uma reprodução da linha de telefone usada para entrevistas.
É um dos poucos lugares ligados aos Beatles onde ainda se consegue sentir qualquer coisa parecida com o momento original.
Porque é que ainda falamos disto
Talvez porque a ideia seja demasiado simples para desaparecer. Enquanto houver guerras, fronteiras, bombas e líderes dispostos a falar mais depressa de armas do que de pessoas, “Give Peace a Chance” vai continuar a soar atual.
Mais de cinquenta anos depois, aquela gravação improvisada num quarto de hotel continua a lembrar-nos de uma coisa desconfortável: a paz pode parecer ingénua, mas continua a ser uma das ideias mais radicais que existem.