Nem todos os encontros a quatro têm de ser perfeitos. Às vezes, basta que sejam possíveis.
Como continuar a sair a quatro sem transformar um jantar numa pequena prova de resistência emocional — e sem pôr em causa uma amizade que continua a valer a pena.
Há pessoas que entram numa sala e tornam tudo mais leve. E depois há pessoas que entram numa sala e, sem fazer nada de propriamente grave, conseguem que uma pessoa comece a interessar-se subitamente pela parede, pelo menu ou pela textura da toalha.
Às vezes, essa pessoa é o marido da nossa amiga. Ou a mulher do nosso amigo. Ou o companheiro daquela pessoa de quem gostamos mesmo muito — mas que, por alguma razão misteriosa da vida adulta, escolheu alguém com quem nós não iríamos sequer dividir uma travessa de croquetes.
E pronto. Cá estamos.
Não estamos a falar de relações abusivas, cruéis ou perigosas. Isso é outra conversa, muito mais séria. Falamos antes daquela zona cinzenta e comum: o parceiro que monopoliza a conversa, a pessoa que se queixa de tudo, o marido que transforma qualquer jantar numa conferência sobre impostos, a mulher que nunca parece gostar de nada, o namorado que faz piadas que já vinham cansadas de casa.
A amizade adulta tem destas coisas. Raramente vem sozinha. Vem com filhos, horários, cães, sogras, cansaço acumulado e, por vezes, uma pessoa extra à mesa que nos obriga a respirar fundo antes da sobremesa.
Mas há uma boa notícia: não precisamos de adorar toda a gente para continuar a cuidar das relações que importam.
Há uma fantasia muito bonita da vida adulta: dois casais, todos interessantes, todos disponíveis, todos a rir das mesmas coisas, todos a dividir uma garrafa de vinho como se estivessem num anúncio de azeite.
Acontece. Mas não acontece tantas vezes assim.
Richard Slatcher, professor de Psicologia na University of Georgia e investigador na área das relações próximas, afirma que os amigos de casal podem ajudar-nos a apreciar mais o nosso próprio parceiro. Segundo ele, ver outras pessoas a gostarem da companhia da pessoa com quem vivemos pode fazer-nos pensar: “O meu parceiro é mesmo especial.”
Isto é bonito. E, em muitos casos, verdadeiro.
Mas também existe a versão menos poética: ver o parceiro da nossa amiga interromper toda a gente pela terceira vez pode fazer-nos pensar: “Talvez eu esteja afinal muito bem casada.”
A investigação de Slatcher e colegas sugere que as amizades entre casais podem aumentar sentimentos de satisfação, paixão e ligação dentro da própria relação, sobretudo quando existe partilha verdadeira e resposta emocional entre as pessoas envolvidas. Num estudo publicado em Personal Relationships, os autores analisaram como a auto-revelação e a responsividade entre casais influenciam o amor apaixonado dentro do casal.
Ou seja: sair com outros casais pode fazer bem. Mas só quando a experiência não parece uma pequena negociação diplomática.
Richard Slatcher, professor de Psicologia na University of Georgia, tem estudado relações próximas e amizades entre casais. A sua investigação sugere que as amizades de casal podem reforçar a ligação dentro da própria relação, sobretudo quando existe partilha emocional e responsividade. Ler mais.
Liliana Dias, psicóloga citada pela Visão, lembra que as amizades vivem também de rituais e rotinas. Esta ideia é útil quando sair “a quatro” parece pesado: talvez o problema não seja só a pessoa, mas o formato do encontro.
O erro mais comum é insistir sempre no mesmo formato: jantar sentado, frente a frente, durante três horas, com pratos principais, sobremesa e tempo suficiente para alguém dizer “já agora, o que vocês acham da política actual?”
Se sabemos que certa pessoa domina a conversa, talvez um jantar longo não seja a melhor ideia. Se sabemos que se queixa de tudo, talvez não seja prudente escolher um restaurante novo, com menu experimental e cadeiras desconfortáveis. Se sabemos que gosta de provocar discussões, talvez seja melhor não a sentar à nossa mesa numa noite em que já estamos cansados.
Há pessoas que funcionam melhor em movimento.
Um passeio, uma exposição, um concerto, uma ida ao cinema, uma feira, uma caminhada curta, um mercado, uma visita a uma vila bonita num domingo de manhã. Tudo isto cria assunto fora da personalidade de cada um. Há coisas para olhar, comentar, experimentar. O foco sai da mesa e passa para o mundo.
E isto ajuda muito.
A psicóloga Liliana Dias, numa entrevista à Visão sobre amizade, lembra que certas amizades se organizam muito em torno de rotinas e rituais — como desporto, cafés, bares ou actividades partilhadas — e que a perda desses rituais pode desorganizar a vida social.
Talvez o truque esteja aí: em vez de forçar intimidade, criar ritual.
Um cinema por mês. Um passeio ao sábado. Um almoço curto. Uma ida a uma feira de antiguidades. Um café depois de uma caminhada. Qualquer coisa que tenha princípio, meio e fim — sobretudo fim.
Há pessoas que chegam às sete e meia e às onze ainda estão a explicar uma história que começou em 1998.
Se gosta muito da sua amiga, mas o parceiro dela tem tendência para se instalar como se tivesse arrendado a sala, talvez a sua casa não seja o melhor lugar. Não por maldade. Por gestão emocional.
Encontrar-se fora dá liberdade. Um café permite uma saída elegante. Um restaurante tem conta. Um cinema tem horário. Um passeio tem regresso. A casa, pelo contrário, pode transformar-se numa pequena armadilha com guardanapos de pano.
Isto não é falta de generosidade. É auto-conhecimento.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses lembra, num guia sobre solidão, que a qualidade das relações importa mais do que a quantidade: podemos ter muitos contactos e, ainda assim, sentir falta de ligação, apoio ou confiança.
Apliquemos isto também às amizades de casal. Não precisamos de multiplicar encontros longos para provar que somos bons amigos. Às vezes, um encontro curto e bem escolhido faz mais pela relação do que uma noite inteira de esforço silencioso.
Antes de sair, vale a pena combinar uma pequena estratégia com a pessoa que vai connosco.
Não precisa de ser nada dramático. Basta algo como: “Se a conversa entrar naquele tema, ajudas-me a mudar de assunto?” Ou: “Se eu começar a ficar com aquele sorriso de fotografia de passaporte, talvez seja hora de pedirmos a conta.”
Isto evita muitos ressentimentos.
Porque há uma coisa curiosa: às vezes, nós próprios podemos queixar-nos do parceiro da nossa amiga durante dias. Mas se o nosso companheiro disser exactamente a mesma coisa, sentimos imediatamente vontade de defender a pessoa.
É irracional? Sim.
É humano? Muito.
Por isso, convém falar antes, não depois. O objectivo não é preparar uma conspiração. É só criar uma pequena aliança doméstica para que a noite não acabe em discussão no carro.
E, se tudo correr bem, talvez até aconteça o contrário: ver o nosso parceiro ser paciente, simpático ou divertido numa situação social menos fácil pode lembrar-nos de qualidades que, em casa, entre roupa por dobrar e contas por pagar, às vezes passam despercebidas.
Esta é talvez a parte mais delicada.
Quando não gostamos do companheiro de uma amiga, é fácil começar a olhar para ela com alguma impaciência. “Como é que ela não vê?” “Como é que aguenta?” “Como é que escolheu isto?”
Mas as pessoas são mais complexas por dentro do que parecem por fora. Há uma intimidade numa relação que os amigos não vêem. Há histórias, fragilidades, lealdades, medos, hábitos, ternuras privadas. Há também, claro, más escolhas. Todos temos algumas.
A não ser que exista desrespeito, abuso, manipulação ou perigo — situações em que a conversa muda completamente — talvez o mais sábio seja separar as coisas.
A sua amiga continua a ser a sua amiga.
O parceiro dela pode ser uma parte difícil do pacote, mas não precisa de ocupar a amizade inteira.
Toda a pessoa adulta devia ter uma frase de saída guardada, tal como se guarda um guarda-chuva no carro.
“Foi tão bom, mas amanhã temos uma manhã cedo.”
“Vamos indo, que já estamos a começar a desligar.”
“Gostei muito, mas hoje não consigo esticar mais.”
“Ficamos por aqui e marcamos outra coisa com calma.”
Não é preciso inventar uma doença, uma emergência familiar ou um forno ligado. A elegância está muitas vezes na simplicidade.
E, sim, talvez a outra pessoa fique um bocadinho desapontada. Sobreviverá. Nós também merecemos sobreviver à nossa própria vida social.
Nem toda a gente difícil é difícil em todos os contextos.
A pessoa que é insuportável a discutir política pode ser óptima a falar de cães. A que monopoliza jantares pode ser surpreendentemente útil numa caminhada. A que parece sempre negativa pode iluminar-se quando fala de jardinagem, cinema antigo, comida, viagens, futebol, bordados ou motas.
Às vezes, a generosidade está em encontrar uma porta pequena.
Não precisamos de fazer daquela pessoa a nossa nova melhor amiga. Basta descobrir um tema, uma actividade ou uma duração em que a convivência se torna possível.
A própria OPP sublinha que a solidão não é apenas ausência de companhia, mas uma diferença entre o contacto, o apoio ou a proximidade que desejamos e aquilo que realmente temos. Quando pensamos nisto, percebemos que manter algumas pontes — mesmo imperfeitas — pode ter valor.
Não por obrigação social. Mas porque a vida adulta já corta relações suficientes sem a nossa ajuda.
Esta é a pergunta que estraga um bocadinho o prazer moral da situação.
Porque, naturalmente, todos imaginamos que somos a pessoa agradável do jantar. A que ouve. A que ri no momento certo. A que não exagera no relato das férias. A que sabe quando parar de falar sobre a humidade da casa.
Mas talvez, nalguma mesa, haja alguém a suspirar antes de nos encontrar.
Talvez sejamos nós a pessoa que fala demasiado quando está nervosa. Ou a que se cala e parece antipática. Ou a que faz perguntas invasivas sem intenção. Ou a que tem sempre uma opinião. Ou a que escolhe restaurantes impossíveis.
Esta hipótese, embora desconfortável, tem utilidade. Ajuda-nos a ser mais brandos.
Não temos de gostar de toda a gente. Mas podemos tentar não reduzir ninguém ao seu traço mais irritante.
E, no fundo, talvez seja isto que mantém muitas amizades vivas: uma mistura de afecto, paciência, bom senso e actividades cuidadosamente escolhidas.
De preferência, com hora de saída..
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