Kira Schwarz / Pexels
Outubro chega e, de repente, o mundo parece vestir-se de cor-de-rosa. Laços, montras, caminhadas, publicações nas redes sociais, produtos solidários, campanhas com mensagens bonitas. A intenção é importante: lembrar a prevenção, o rastreio e o diagnóstico precoce do cancro da mama.
Mas nem todas as pessoas recebem esse mês da mesma forma.
Para alguns sobreviventes, Outubro pode funcionar como uma lembrança constante do que viveram: o dia do diagnóstico, os tratamentos, a cirurgia, o medo de uma recidiva, o corpo que mudou, a vida que teve de ser interrompida. Aquilo que para uns aparece como símbolo de esperança pode, para outros, abrir uma gaveta emocional que estava apenas encostada.
E isso não significa rejeitar a causa. Significa reconhecer que a experiência do cancro da mama não cabe sempre numa campanha bonita.
Em Portugal, segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, são detectados anualmente cerca de 9.000 novos casos de cancro da mama, e mais de 2.000 mulheres morrem com a doença. A mesma entidade lembra que, quando diagnosticado e tratado precocemente, o cancro da mama pode ter uma taxa de cura superior a 90%.
Ou seja, falar de prevenção é essencial.
Mas também é essencial falar do depois.
Um estudo publicado no Journal of the National Cancer Institute, que analisou a saúde mental de sobreviventes de cancro da mama, encontrou evidência de maior risco de ansiedade, depressão, suicídio e outras dificuldades psicológicas quando comparadas com mulheres sem história prévia de cancro. Isto ajuda a explicar porque certos períodos, símbolos ou campanhas podem trazer à superfície emoções que não desapareceram só porque o tratamento terminou.
Nicole Kagy, assistente social clínica do Cedars-Sinai, descreveu algo semelhante ao falar sobre o mês de sensibilização: para alguns doentes e sobreviventes, ver laços cor-de-rosa por todo o lado pode ser mais inquietante do que reconfortante. Não porque a sensibilização seja errada, mas porque a recordação é constante.
Uma das críticas ao chamado “pinkwashing” é a forma como algumas marcas usam o Outubro Rosa como gesto sazonal, sem explicar claramente quanto é doado, para quem, ou com que impacto real.
Há também outra ausência: a realidade menos fotogénica da doença. Nem todos sobrevivem. Nem todos se sentem “guerreiros”. Nem todos querem transformar a sua história em inspiração pública. Algumas pessoas estão em tratamento. Outras estão em vigilância. Outras perderam alguém. Outras simplesmente não querem falar.
E todas essas respostas são legítimas.
Um estudo de 2022 sobre campanhas Outubro Rosa e rastreio mamográfico mostrou que estas iniciativas podem aumentar a realização de mamografias nos meses próximos da campanha, mas os autores defenderam que acções semelhantes deveriam ser intensificadas ao longo do ano, e não concentradas apenas em Outubro.
Talvez essa seja uma boa forma de pensar no assunto: o mês ajuda. Mas a vida das pessoas não acontece apenas durante o mês da campanha.
Para quem viveu o cancro da mama, pode ajudar lembrar que não há obrigação de participar em tudo. Pode fazer uma pausa nas redes sociais, evitar certos eventos, escolher com quem fala ou simplesmente deixar o mês passar da forma mais serena possível.
Para quem quer apoiar, o melhor começo é simples: perguntar, ouvir e não impor. Evite frases feitas, comparações com outras pessoas ou comentários que transformem dor em lição rápida.
Também vale a pena olhar melhor para os produtos cor-de-rosa antes de comprar. Apoiar uma campanha pode ser útil, mas doar directamente a uma organização credível, a uma associação local ou a um projecto que acompanhe doentes e famílias pode ter mais impacto.
A Liga Portuguesa Contra o Cancro disponibiliza a Linha Cancro, uma linha de apoio à pessoa com cancro, familiares, cuidadores e amigos.
Telefone: 808 255 255
Email: linhacancro@ligacontracancro.pt
Horário: dias úteis, das 9h às 18h
A linha pode ajudar com informação sobre a doença, apoio social, apoio psicológico, direitos dos doentes e encaminhamento para serviços de apoio.
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