Bem-Estar

Bactérias na maquilhagem: o pequeno susto nos produtos que quase todas trazemos connosco

Quase todas temos produtos de maquilhagem que nos acompanham de casa para a mala, da casa de banho para viagens, de manhãs apressadas para retoques rápidos. Mas esponjas, pincéis, máscaras e batons também tocam na pele, nos olhos e nos lábios — e precisam de mais limpeza, atenção e cuidado do que às vezes lhes damos.
Os batons e gloss em nossa amostra continham estafilococos e diversas bactérias associadas à matéria fecal. Imagem: Andriyko Podilnyk
O essencial
  • Um estudo da Aston University encontrou contaminação bacteriana em muitos produtos de maquilhagem usados, especialmente esponjas.
  • O problema não é a maquilhagem em si, mas os hábitos que esquecemos: esponjas húmidas, pincéis por lavar, produtos partilhados e máscaras antigas.
  • Lavar pincéis, secar esponjas, não partilhar produtos de olhos e boca e respeitar o símbolo “6M” ou “12M” ajuda a manter a rotina mais limpa e segura.
Por Marta · Atualizado a 3 de junho de 2026 · Leitura: 8 minutos Marta Soares escreve sobre casa, rotinas simples e pequenos gestos do dia a dia — aqueles detalhes discretos que tornam os espaços mais bonitos, úteis e vividos.

Quando falamos da “bolsa de maquilhagem”, não estamos realmente a falar da bolsa.

Estamos a falar do que vive lá dentro: a máscara que usamos junto aos olhos, o batom que passa pelos lábios, a esponja húmida que volta para o fundo da mala, os pincéis que acumulam produto, pele, oleosidade e pressa.

Quase todas temos alguns destes pequenos sobreviventes. Produtos que vão connosco para viagens, manhãs apressadas e retoques antes de sair. Produtos que parecem inofensivos porque fazem parte da rotina.

A minha, por exemplo, parece pequena, mas tem dentro uma espécie de arquivo pessoal: um batom comprado para um jantar, uma máscara quase seca, um lápis de olhos que provavelmente já devia ter reforma, e uma esponja que, se falasse, talvez pedisse férias.

Durante muito tempo, olhei para tudo isto com a confiança tranquila de quem pensa: se ainda parece bom, ainda está bom.

Depois comecei a ler sobre maquilhagem usada, bactérias, esponjas húmidas guardadas dentro de bolsas fechadas e pincéis que vão acumulando produto, oleosidade e pele morta.

E pronto. Lá se foi a inocência.

Não foi um pânico. Não comecei a atirar produtos para o lixo como se estivesse numa série policial. Mas houve aquele momento desconfortável em que olhamos para uma coisa do dia-a-dia e pensamos: “Pois. Isto faz sentido.”

Porque a maquilhagem toca na pele, nos olhos, nos lábios, nas mãos. Vai connosco para a mala, para viagens, para casas de banho, para manhãs apressadas. Cai no chão. Volta para a bolsa. Fica aberta mais tempo do que devia.

E nós, muitas vezes, continuamos a usá-la como se nada fosse.

A maquilhagem não é o problema. O esquecimento é.

Um estudo da Universidade de Aston (Aston University), publicado no Journal of Applied Microbiology, analisou produtos de maquilhagem usados — incluindo batons, glosses, delineadores, máscaras e esponjas — e encontrou contaminação bacteriana em grande parte dos artigos testados. As esponjas de maquilhagem foram o caso mais preocupante, com cargas bacterianas muito superiores às dos outros produtos.

No mesmo estudo foram detectadas bactérias como Staphylococcus aureus, Escherichia coli e Citrobacter freundii. Isto não significa que cada bolsa de maquilhagem seja uma ameaça ambulante, nem que devamos viver com medo de um batom. Mas lembra-nos de uma coisa bastante prática: aquilo que usamos todos os dias também precisa de cuidados.

E, honestamente, é fácil esquecer.

Eu lembro-me dos cremes. Lembro-me do protector solar quando me porto bem. Lembro-me de lavar o rosto. Mas lavar pincéis com regularidade? Trocar esponjas antes de elas parecerem uma relíquia arqueológica? Pensar no que andou aberto, húmido, fechado ou esquecido no fundo da bolsa?

Aí já começamos a entrar numa zona mais vaga da minha personalidade.

CHRIS carroll / Pixabay

A esponja merece uma conversa séria

De todos os produtos, a esponja de maquilhagem foi a que mais me fez levantar a sobrancelha.

Porque uma esponja parece inofensiva. Macia, pequena, útil. Mas também é exactamente o tipo de objecto que absorve produto, água, oleosidade e restos de pele. Depois fica húmida, muitas vezes dentro de uma bolsa fechada.

Ou seja: um pequeno hotel boutique para micróbios. Com spa incluído.

No estudo da Aston University, as esponjas apresentaram as cargas microbianas mais elevadas, em parte porque são frequentemente usadas húmidas e nem sempre lavadas ou secas correctamente.

A partir daí, a minha relação com a esponja mudou.

Não deixei de usar. Apenas deixei de a tratar como se fosse indestrutível. Lavar, enxaguar bem, deixar secar completamente ao ar e substituir quando começa a perder a forma, o cheiro ou a dignidade passou a parecer menos exagero e mais bom senso.

A regra que adoptei é simples: se toca no meu rosto muitas vezes por semana, não pode viver indefinidamente no fundo da bolsa.

Os pincéis também guardam memórias — e não só

Há pincéis que parecem limpos porque ainda mantêm a forma. Mas basta olhar melhor para perceber que vivem uma vida bastante movimentada.

Passam pelo pó, pela base, pelo blush, pela pele, pela bancada, pela bolsa. Às vezes são usados todos os dias. Às vezes ficam semanas sem serem lavados. E, como acontece com quase tudo o que toca a pele repetidamente, acumulam mais do que cor.

A Academia Americana de Dermatologia (American Academy of Dermatology) recomenda lavar os pincéis de maquilhagem a cada sete a dez dias para ajudar a remover resíduos, sujidade e bactérias. A recomendação é simples: lavar as pontas com água morna, usar um produto de limpeza suave, enxaguar bem e deixar secar na horizontal.

Não é uma daquelas tarefas que nos apetece fazer num domingo à noite, eu sei.

Mas há qualquer coisa de satisfatório em ver os pincéis limpos, alinhados, finalmente inocentes. É quase uma pequena absolvição doméstica.

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O rímel antigo não é vintage

Há produtos que parecem durar para sempre. A máscara de pestanas é um deles.

Fica ali, vai secando devagar, mas nós insistimos. Rodamos a escova, tentamos apanhar mais produto, fazemos aquele movimento de vai-e-vem dentro do tubo — que, aparentemente, também não é uma ideia brilhante — e convencemo-nos de que ainda serve.

A zona dos olhos merece um cuidado especial. A Administração dos Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) lembra que os cosméticos usados junto aos olhos tendem a ter uma vida útil mais curta, porque cada utilização expõe o produto a bactérias e fungos; muitos fabricantes recomendam substituir a máscara dois a quatro meses depois da abertura ou compra.

Isto fez-me pensar em algumas máscaras que eu já tinha usado muito para lá do seu momento digno.

Quando falamos de produtos que entram em contacto com pestanas, pálpebras e mucosas, convém sermos menos sentimentais. Se a máscara secou, mudou de cheiro, irrita os olhos ou já está aberta há demasiado tempo, talvez não esteja “quase boa”.

Talvez esteja acabada.

E há uma diferença.

A bolsa limpa começa nos hábitos pequenos

Claro que os prazos também contam.

Muitos cosméticos trazem aquele símbolo de um frasco aberto com um número: 6M, 12M, 24M. O Portal Info Cosméticos explica que, quando os produtos têm uma durabilidade mínima superior a 30 meses, a embalagem deve indicar durante quanto tempo podem ser usados sem risco após a abertura. A DECO PROTeste também recomenda respeitar esse período e anotar a data de abertura, para não dependermos apenas da memória.

Mas a higiene da maquilhagem não se resume a datas.

Também passa por lavar pincéis, deixar esponjas secar bem, não partilhar produtos de olhos e boca, fechar as tampas, guardar a maquilhagem longe de calor e humidade excessivos, e perceber quando um produto mudou de cheiro, textura ou cor.

Foi isso que me fez olhar para a minha bolsa de outra forma.

Não como um perigo. Como uma rotina que precisava de um pouco mais de atenção.

Quando já foram usados várias vezes, delineadores e máscaras de pestanas podem acumular bactérias como E. coli e Staphylococcus.
Chris Parker / Pixabay

Partilhar maquilhagem parece íntimo — mas nem sempre é boa ideia

Há qualquer coisa de afectuoso em partilhar produtos. Uma amiga esqueceu-se do batom. Alguém precisa de um retoque antes de sair. O gloss passa de mão em mão. O lápis de olhos salva a noite.

Mas os produtos que tocam directamente nos olhos e nos lábios não são os melhores candidatos a vida comunitária.

O SNS 24, nas orientações sobre conjuntivite, recomenda evitar contacto com objectos contaminados, incluindo cosméticos, e lavar as mãos com frequência. Também aconselha cuidados com toalhas, fronhas e objectos pessoais durante a infecção.

Por isso, talvez esta seja uma daquelas fronteiras pequenas que podemos aprender a pôr sem culpa.

Partilhar perfume? Claro.
Partilhar sombra aplicada com pincel limpo? Talvez.
Partilhar rímel, eyeliner ou gloss? Melhor não.

A amizade sobrevive.

Os olhos agradecem.

Quando é melhor deitar fora sem discutir

Há momentos em que não vale a pena negociar.

Se teve conjuntivite ou outra infecção ocular, a Academia Americana de Oftalmologia (American Academy of Ophthalmology)recomenda deitar fora a maquilhagem dos olhos e só voltar a usar produtos novos quando a infecção estiver resolvida.

Também vale a pena descartar qualquer produto que tenha mudado de cheiro, textura ou cor. Se ficou estranho, ficou estranho. Não é uma fase. Não está “mais concentrado”. Não amadureceu como vinho.

E, por mais tentador que seja, não é boa ideia adicionar água ou saliva para “recuperar” máscara, eyeliner ou produtos secos. A FDA alerta que isso pode introduzir bactérias no produto.

Eu sei. Dói deitar fora aquele produto que ainda tem metade.

Mas às vezes metade de um produto mau é apenas metade de um problema.

Uma pequena rotina, sem dramatizar

O lado bom disto tudo é que não precisamos de transformar a casa de banho num laboratório.

Basta criar uma rotina muito simples.

Lavar pincéis com regularidade.

Deixar esponjas secar completamente antes de as guardar.

Não partilhar produtos que tocam nos olhos e na boca — máscara, eyeliner, gloss e batom.

Fechar bem as tampas.

Guardar os produtos longe de calor excessivo e humidade.

E, de vez em quando, abrir a bolsa e fazer uma pequena vistoria. Não precisa de ser uma grande cerimónia. Basta olhar com honestidade para o que ainda usamos, o que já passou do prazo e o que está ali apenas porque temos dificuldade em despedir-nos de coisas pequenas.

Cinco minutos chegam.

A bolsa fica mais leve. A rotina fica mais limpa. E há qualquer coisa de satisfatório em perceber que não precisamos de comprar mais para cuidar melhor de nós.

Às vezes, basta lavar o pincel.

Mark Mook / Pixabay

A maquilhagem deve continuar a ser prazer

Gosto demasiado de maquilhagem para transformar isto numa história de medo.

A maquilhagem pode ser brincadeira, confiança, cor, ritual, disfarce, expressão ou simplesmente aquele gesto de dois minutos que nos ajuda a sair de casa com outra energia.

Mas prazer e cuidado podem viver juntos.

E talvez este seja o ponto: a maquilhagem não precisa de ser tratada como perigo. Precisa apenas de ser tratada como algo que toca o nosso corpo.

Desde que li o estudo, não fiquei obsessiva. Fiquei mais atenta.

Troquei uma máscara antiga. Lavei pincéis que já estavam a merecer. Olhei para a esponja com aquele ar de quem sabe a verdade. E prometi a mim mesma que, da próxima vez que pensar “ainda dá”, vou pelo menos confirmar se aquilo ainda merece estar ali.

Porque há pequenos cuidados que não mudam a vida inteira.

Mas mudam a forma como começamos a manhã.

A maquilhagem deve continuar a ser prazer, não preocupação. Mas lavar pincéis, deixar esponjas secar bem, não partilhar produtos usados junto aos olhos e à boca, respeitar o símbolo de validade após abertura e trocar o que já mudou de cheiro, textura ou cor são gestos simples que tornam a rotina mais segura — e, curiosamente, até mais leve.
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