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O Pão de Massa Mãe Faz Mesmo Bem à Saúde? O Que Dizem a Ciência — e a Tradição

Da digestão ao controlo do açúcar no sangue, a ciência explica porque o pão de massa mãe pode ser diferente do pão comum.

Imagem: Ted Erski

Nem todos os alimentos seguem o mesmo ritmo.

O pão de massa mãe nasce da lentidão. Não depende de fórmulas rápidas nem de fermentos industriais, mas de um processo natural onde o tempo desempenha um papel essencial — tão importante quanto a farinha ou a água.

Durante grande parte da história, este foi o modo habitual de fazer pão. A fermentação natural fazia parte do quotidiano muito antes da industrialização transformar a alimentação num exercício de velocidade e conveniência.

Hoje, num contexto em que cresce o cansaço em relação aos alimentos ultraprocessados, a massa mãe regressa com outro significado. Já não representa apenas tradição, mas uma procura por equilíbrio, digestão mais confortável e escolhas que respeitam o corpo.

A ciência, curiosamente, começa agora a confirmar aquilo que a experiência antiga sempre sugeriu.

O Que Torna a Massa Mãe Diferente

Ao contrário do pão comum, feito com fermento industrial de ação rápida, a massa mãe depende de um processo vivo: a fermentação natural.

Durante várias horas — e por vezes dias — leveduras selvagens e bactérias lácticas transformam a massa. Esse tempo altera o sabor, a textura e, sobretudo, a forma como o pão é digerido pelo organismo.

Não é apenas uma diferença artesanal. É uma diferença biológica.

Porque Pode Ser Mais Fácil de Digerir

Durante a fermentação, parte do glúten é previamente degradada. Ao mesmo tempo, reduz-se a presença de compostos naturalmente existentes nos cereais que podem causar desconforto intestinal, como os FODMAPs, os fitatos, os taninos e os inibidores de tripsina.

Para muitas pessoas, isto traduz-se em menos inchaço, menos sensação de peso e maior conforto após a refeição.

Uma revisão científica publicada em 2023 na revista Frontiers in Nutrition refere que:

“É amplamente reconhecido que a fermentação da massa mãe melhora o perfil nutricional do pão e reduz componentes que podem provocar queixas gastrointestinais em indivíduos sensíveis.”

Outros estudos clínicos que compararam pão de massa mãe com pão fermentado por levedura industrial observaram melhorias na tolerância digestiva e na sensação de saciedade — sobretudo quando a fermentação é longa e tradicional.

Um Impacto Mais Suave no Açúcar no Sangue

A fermentação natural produz ácidos orgânicos, como o ácido láctico e o acético, que atrasam a digestão do amido.

Na prática, isto significa que a glicose entra na corrente sanguínea de forma mais gradual, evitando picos abruptos após as refeições.

Por esse motivo, o pão de massa mãe apresenta geralmente um índice glicémico inferior ao do pão branco convencional, contribuindo para níveis de energia mais estáveis ao longo do dia.

Melhor Aproveitamento dos Nutrientes

Os cereais integrais contêm fitatos — compostos que dificultam a absorção de minerais como ferro, cálcio, magnésio e zinco.

A fermentação da massa mãe reduz significativamente esses anti-nutrientes. Alguns estudos indicam que métodos tradicionais conseguem eliminar mais de 90% do ácido fítico presente na massa.

O resultado é um pão que não apenas contém nutrientes importantes, mas permite que o corpo os absorva de forma mais eficaz.

⚠️ Um Ponto Importante a Ter em Conta

Nem todo o pão rotulado como “massa mãe” oferece os mesmos benefícios.

Os efeitos dependem de vários fatores, como:

  • tempo real de fermentação
  • tipo de farinha
  • culturas bacterianas utilizadas
  • métodos de produção

Alguns produtos industriais recorrem a processos acelerados que imitam o sabor ácido, mas não replicam os efeitos metabólicos observados nos estudos.

A evidência científica mais consistente está associada à fermentação lenta e tradicional.

Ou seja: o tempo continua a ser essencial.


E Quanto ao Glúten?

Apesar de conter menos glúten do que o pão convencional, a massa mãe não é isenta de glúten e não é adequada para pessoas com doença celíaca.

Existem versões sem glúten feitas com cereais como millet, sorgo, teff, quinoa ou trigo-sarraceno. A textura é diferente, mas os benefícios da fermentação mantêm-se.

Em Resumo

O pão de massa mãe não é um alimento milagroso — mas também não precisa de o ser.

O que oferece é algo mais duradouro: digestão mais confortável, energia mais equilibrada, melhor aproveitamento nutricional e uma ligação a formas antigas de preparar os alimentos.

Num mundo acelerado, a massa mãe lembra-nos de algo simples — quando damos tempo à comida, damos também tempo ao corpo.

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